terça-feira, 16 de outubro de 2012 0 comentários

entre o céu e o inferno.


Ha muitos anos atrás eu estive presente num encontro desses de motociclistas nas cidades pequenas (em geral). De fato tem muita coisa para se dizer deste "Circo". Mas o que eu quero dizer vai um pouco além de indignação. vai até o fato de tornar-se frouxo.

O local era interessante, os cidadãos respeitavam o evento e a festa estava indo muito bem quando eu cheguei, até que eu vi logo na entrada uma placa: 

"após o cordão amarelo, 
apenas coletes fechados. 
motos acima de 500cc 
não pagam estacionamento".

Segui com minha moto adiante, afinal não pagaria estacionamento já. Mas havia uma questão que ficou na minha cabeça: o que tinha "depois do cordão amarelo" que só os coletes fechados poderiam ver? é claro que isso também não era um problema pra mim. então continuei seguindo em frente.

O encontro estava dividido em duas partes: a entrada e os fundos; A entrada possuía lanchonetes, espaço para camping, banda ao vivo tocando, praça de alimentação, local de inscrição, trofeus, banner de fundo (com estrada) para fotos e por aí vai. Nos fundos era que o inferno começava. Tinha garçonetes sem a blusa servindo cerveja, stripers nas bancadas, motociclistas bêbados jogados no chão dormindo do lado do próprio vomito e algumas jogatinas como sinuca, baralho ou mesmo queda de braço. Nada muito fora da ordem ou do que foi feito pra existir.

Encostei minha moto perto de um tronco de uma arvore bem grande, assentei-me num banco ali por perto e acendi um charuto. Com alguns minutos, alguns motociclistas, amigos dessas estradas que a gente encontra por aí vieram até mim, perguntaram que horas eu havia chegado, se havia feito uma boa viagem , sabe? essas coisas comuns que se pergunta em eventos, mas logo voltaram para a festa.

De repente atravessou o cordão amarelo para o lado dos fundos) um homem, um homem acompanhado de seu filho. não sei bem porque, mas algo me dizia que eu devia continuar acompanhando os movimentos dele.

O cara estava "à caráter" mas não para o motociclismo de verdade. muita coisa "original da Harley" outras tantas coisas penduradas no colete que parecia aquelas mulas de cigano... E o filho dele, um menino de 7 anos (no colo do pai), olhava tudo com estranheza. 

O fato era claro. eles não deviam estar ali. Não demorou muito até o pessoal começar a cercar ele e o mesmo ter que dar as costas e a galera perceber em vias de fato ele não tinha um escudo de clube atrás do colete, só o brasão da HD. E então ele foi acompanhado até a porta.

"Deixei" tudo acontecer, e então fui até o bar e peguei uma cerveja. segui andando devagar até o cordão amarelo que separava o "céu do inferno" dentro do evento, e pude ver o tal Homem conversando com o seu filho enquanto comia um crepe... Já estava feito. O que eu tinha que aprender, terminara ali, e então eu dei as costas e retornei para o lado "certo" do evento. os fundos, é claro.

É interessante como as pessoas querem pegar algo pronto e tentar mesclar com o que elas tem. Pode parecer estranho, filho, mas o que eu quero dizer é: Quando se leva a família (ou o que temos mais próximo disso) a um encontro, é porque queremos que "esses convidados" partilhem de algo que vivemos, ou aprendam e convivam com esse tipo de ideia que temos durante o tempo que passamos lá... ouvindo rock'n roll, tomando uma cerveja ou mesmo dormindo em barracas. 

Entretanto o que temos são familiares que estão num evento como se fossem convidados especiais, e lá os "tais motociclistas" procuram dar um evento de qualidade superior. Com hotel, café da manhã, jantares no meio do evento e todas as coisas a mais. Pode parecer estranho, mas não reclamo do nível de gasto ou o que se resolve comer, gastar ou não é uma questão de cada um. 

Só que fazer o que esse cara fez, transmitir essa estranheza para o filho, pensar que os mesmos padrões de moralidade, liberdade sexual, companheirismo e relacionamentos são os mesmos patamares a serem julgados lá fora na sociedade e dentro da ideologia do motociclismo, É pensar completamente de forma enganada. 

Trazemos nossos familiares para a estrada ou um encontro para que eles endureçam espírito para seguir contra o que a vida dura nos dá, e não para amoleçam o motociclismo com seus espíritos frouxos e acomodados dentro de salas ar-condicionadas, com ternos, gravadas, computadores e papel.

Convidamos as pessoas que queremos o bem para que durante apenas um fim de semana, elas possam experimentar o que é viver perto do som alto, sentados em algum meio fio e bebendo uma cerveja gelada ou compartilhando a mesma garrafa de vinho no bico e não para sentarmos longe da área do evento e fazer passeios no shopping que são exatamente iguais aos de nossa cidade. 

Trazemos aqueles que amamos para perceber que um fim de semana pode compensar semanas inteiras de trabalho árduo e até o cansaço físico no dia seguinte, mas os mesmos insistem em carregarem com eles uma farmácia (opcional) inteira, cheia de tabelas, miligramas e horários que devem ser civilizadamente seguidas à risca, e isso é triste. 

O problema é que isso não vai parar e nem diminuir. o problema é que criamos no final de tudo, um motociclismo com cada vez menos "bom senso" livre de regras para um encontro social com cada vez mais leis e etiquetas... e isso é perder (ou melhor,  vender) a alma para o sistema. e transforma o inferno num céu... exatamente como não deve ser.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012 0 comentários

O peso dos Alforges

Ah! bom dia filho! pronto para mais um sábado de garagem e ajustes na motocicleta? poisé... estamos chegando perto do grande dia.

sim, eu sei que sua mãe queria que você passasse este feriado um pouco mais que prolongado junto com ela, mas de fato não vai adiantar ela ficar ligando pra cá toda hora. agora somos só nós dois. só você e eu... a menos que você queira ficar com ela é claro. hehehe

eu sei filho... 

Sabe uma coisa que eu acredito ser fantástica no motociclismo? é o peso da sua confiança, dependência ou compromisso que você tem junto com ele. O motociclismo não é uma religião, senão você teria a obrigação de fazer algumas coisas, caso contrário seria excluído, mal visto ou desfeito pelas pessoas. Outro fator, é a presença da liderança. é simples:não há. isso é que é o motociclismo. caso você se ausente, as pessoas não te reprimem... apenas sentem sua falta (e melhor, se alegram quando você dá as caras) e como não há lideres, ninguém te controla, apenas diz: Vá com Deus! faça uma boa viagem!

O motociclismo é como alguém que criou um pássaro desde o quebrar do ovo, e o ensinou a voar. e agora quando em pleno voo te observa de longe... se você quer voltar e pousar no dono, é uma escolha sua, não uma obrigação ou lei qualquer. é esse instinto de liberdade que excede o vento no rosto... é a liberdade de ir e vir a qualquer lugar, e fazer quantas amizades quiser ou nenhuma se também não quiser. mas acima de tudo é o quanto você se compromete com a coisa.

sabe filho, mesmo velho, eu ainda tenho algumas obrigações, não são muitas e algumas não são boas, sobretudo, há algumas até plausíveis, que colocando na balança são necessárias, mas não há nada melhor do que dar a tal famosa desculpa: "não poderei ir, porque estarei em viagem com minha moto para tal lugar...". o que eu quero dizer é que, se você não for, nada de mal vai acontecer e você pode ficar em casa ou em qualquer outro lugar... mesmo porque se escolher ficar em casa (sem motivo algum) não se admire se algum dia você olhar para o espelho e não ver cores algumas a não ser um desgraçado cinza opaco diante dos próprios olhos.

quanto ao evento negado... o evento acontecerá da mesma forma, as pessoas irão e voltarão na mesma. Acidentes acontecerão e motoclubes perderão seus membros. mas o que conta é a sua dedicação. o seu compromisso com sigo mesmo em "dar-se trabalho" em preparar-se para uma viagem, para gozar de pleno descanso, e mesmo cansado rever pessoas, e conhecer pessoas, e levar para casa planos de novas viagens acompanhado na expectativa de re-ver os velhos amigos que outrora estavam no mesmo motofest. 

pode haver publicidade com compra de motos, jaquetas, músicas, cigarros, bebidas, pneus, hotéis e mais um monte de porcarias que você costuma ver nos encontros, nas placas e nas barracas. o que claramente você nunca vai ver é o incentivo ao motociclismo, afinal, isso não gera lucro... e só quem ganha com isso é você!

pense sobre isso filho...
e enquanto pensa neste peso que você mesmo escolhe a ponderar sobre isso, pegue esses alforges e leve lá em baixo para a garagem!

bom dia!
terça-feira, 18 de setembro de 2012 0 comentários

A corrente-de-comando.

Há muito tempo atrás quando eu ainda estava aprendendo a consertar minha (e outras) moto(s), eu fiquei um tempo atoa na oficina de meu "professor". Lá eu vi pendurado na parede uma corrente-de-comando e então, quando ele voltou, perguntei quanto custava uma corrente nova daquele modelo. Ele me disse um preço muito caro (em comparação ao tamanho e tipo de material). De cara descartei o que tinha em mente, mas ele insistiu em saber o porquê.

Sem muito problema eu contei que havia tido uma ideia de fazer uma pulseira pra mim com aquele tamanho de corrente, porque eu vi que tinha uma perfeição muito grande entre os elos, embora fossem tão pequenos, representavam algo maior pra mim... coisas como o próprio motociclismo ou a força através de tal irmandade.

ele pegou aquela corrente que estava na parede e me deu, dizendo: pegue aí! - eu fiquei lisonjeado, é claro, e disse que não poderia aceitar pois era algo muito caro -  ele me disse que não havia problema pois ela embora estivesse em plena condição visível, já não prestava mais para o uso nas motos.

peguei aquilo, enrolei no lenço que sempre fica no bolso de trás e guardei no bolso da frente, e continuei mexendo nas motos que estavam lá.

Quando fui pra casa, no final do dia, resolvi abrir a garagem e tentar colocar a tal corrente em mim...

Uma chave de fenda aqui... um martelo ali e eu consegui tirar a medida correta da pulseira em volta do meu pulso esquerdo.

Coloquei o metal em volta do braço, e segurei com a mesma mão esquerda a chave de fenda em cima do feixe da corrente e com a outra mão eu bati com o martelo em cima da chave de fenda... sim, é assim que se abre e/ou fecha correntes!

Com certeza me custou um pouco (feriu um pouco a pele), mas diante do bem estar de "carregar" aquilo como um símbolo valera muito mais a pena.

O tempo passou, diga-se de passagem MUITO TEMPO e eu cresci, cresci bem, mas não o suficiente para a corrente me apertar.

Nas horas vagas eu ficava olhando para aquela corrente que já estava no meu braço a quase duas décadas e me lembrava exatamente de tudo o que ela significava pra mim. 

A Corrente-de-comando no pulso era um símbolo bem claro do que eu amava (e ainda amo), que só quem conhecia a (peça pelo nome) sabia por onde eu andei ou do que eu gosto...era uma forma de me comunicar.

Mas é claro que falar (ou no caso usar) o que você pensa, tem suas consequências.

Minha esposa já sabe que por inúmeras vezes eu quase morri por causa do motociclismo, seja por bebedeira em encontro, por acerto de contas, ou por acidentes mesmo na estrada... então é claro que ela tem um conceito muito pessoal e contrário com o que eu sou apaixonado.

Para ela, o único momento bom ou feliz é quando eu estou em casa. Momentos em que eu estou mexendo em minha moto ou planejando viagens... Mas em casa. Isso a deixa feliz. É a hora em que ela pode esquecer todo aquele cheiro de couro com suor, da cerveja em minha barba ou o cheiro de charuto em meu cabelo... entretanto,  basta apenas um abraço dado sem cuidado, para a corrente-de-comando arranhar a pele dela, e ela lembrar de tudo o que eu  e aquele acessório significa, perder o tal "encanto do descanso do marido em casa" e fazer aquela cara de desgosto acompanhada da pergunta que também me acompanha há mais de uma década: "você não vai tirar isso não? isso machuca", eu olho pra cima e não digo nada...

Ela olha para o lado do arranhão, passa a mão por cima, e logo esquece... como se tivesse perdoado, deixa pra lá, tirar algo que me faz bem seria me fazer triste para alegra-la... Porque é apenas um significado materializado do que eu penso... 

e sabe o que eu penso?

Penso que retirar isso, seria como retirar o motociclismo de mim, me machucaria mais do que qualquer coisa só para fazer o bem para os outros. Me amarraria dentro de uma casa na frente da TV confortavelmente penteado, vestido e barbeado e sorrindo na foto que está no porta retrato da mesa de centro, eu já estaria morto. E isso eu não estou disposto a fazer por ninguém.



segunda-feira, 28 de maio de 2012 0 comentários

Couro duro

Todas as manhãs de sábado os Morrisons mandavam seus filhos de casa em casa vender alguma coisa. Em geral, os meninos dele evitavam passar aqui em casa, com certeza tinham medo de minha aparência. Mas quando vinham até aqui era a minha patroa que os atendia e com muita paciência acabava comprando as "coisas" que eles vendiam. Era sempre assim, ela comprava dos meninos, dava um tapinha na cabeça deles e olhava para o outro lado da rua a acenava para os pais que colocavam os filhos cedo no ramo dos negócios.

O tempo passou e eu não pude mais contar com a "patroa"; agora a cena funcionava da seguinte forma: eles tocavam a campainha na frente da casa; da garagem do lado saia eu em silêncio (em geral com uma ou duas chaves de boca nas mãos); os meninos se entre olhavam, olhavam pra mim; olhavam para os pais do outro lado da rua e eu voltava pra dentro da garagem.

Isso aconteceu durante muitos sábados, sábados suficientes para os meninos tornarem-se adolescentes. e nesse caso, eu já poderia ser chamado de "velho".

foi quando um sábado desses apenas um dos dois meninos apareceu na porta de minha garagem. Estranhei mesmo todo aquele comportamento, principalmente pelos fatos de ele estar sozinho e de vir direto aqui na garagem. Levantei de de baixo da moto, passei o anti-braço "limpo" no rosto coloquei as chaves de boca no bolso e limpei as mãos no lenço do bolso de trás:

- diga garoto!
- Olá Se-se-nhor... -o garoto respirou fundo e parou de gaguejar- eu estou aqui pra lhe vender este produto para couro...
- Não estou interessado...
- Mas a Esposa do senhor disse que o senhor sempre teve couro em sua garagem

Pensei comigo mesmo: qual é a do camarada?

- mas minha EX-ESPOSA não mora aqui faz muito tempo!
- sim senhor, mas eu sempre soube que o senhor tinha couro aqui porque quando tenho que ir nesta maldita rua vender essas porcarias que meu pai me manda, eu vejo o Senhor sair com sua moto com todo o couro possível, e eu tenho certeza de que sua ex-esposa devia cuidar muito bem de tudo isso...

O moleque tinha um raciocínio muito bom além de ser um bom observador. resolvi dar corda para o "enforcamento".

- é... ela fazia o que era o possível, mas não com esse couro. - fui até o fundo da garagem e peguei minha jaqueta e trouxe pra ele ver...

os olhos do guri brilhavam como se estivesse diante de algo muito valioso - embora fosse apenas a jaqueta de couro velha - e eu já tinha visto esse olhar antes... era exatamente como o meu quando vi essa jaqueta na vitrine... bem antes de eu ter minha moto.

O garoto dispersou o olhar um instante, e o raciocínio lhe chamou a atenção mais uma vez: 

- Então, como é que você mantem essa jaqueta tão velha com o couro mole depois de tanto tempo?
- Olhe o respeito moleque! 
- desculpe senhor...
- não há segredo em manter o couro mole, é necessário apenas Rodar sempre, usá-lo. Eu utilizo meus couros como um termômetro de estrada. quando ele começa a endurecer, significa que é hora de pegar a estrada. conheço pessoas que quando pegam seu velho couro do guarda roupas ele já está além de duro, mofado... o que é uma pena; Sempre que eu posso (isso é de uns  4 em 4 dias) eu pego a jaqueta, botas, calça e as luvas e "levo Pra passear"

- Mas como? nem sempre é frio o suficiente por essas bandas?

Então eu sorri e apontei pra moto...

- Aquilo ali mantêm qualquer clima frio, e transforma qualquer manhã no gelo mais cortante o possível.

os olhos do garoto se arregalaram quando ouviu minhas comparações. Mas seu sarcasmo era tão afiado quanto sua língua, pelo que me respondeu.


- Então com certeza, vai precisar de meu produto sim, porque mesmo mantendo o couro molinho como aparece aí, tá faltando um brilho nessa bota... e nesse banco da moto... e na luva....

- Já chega guri! quanto é isso aí?
- 2 e meio!
- Tudo isso?
- Não... meu pai me manda vender a dois, mas sabe como é né? o meio é pelo fazer o que é chato...

pensei novamente: putamerda... heheh eu posso estar diante de um próximo motociclista com certeza! o cara tem tudo contra o "sistema", além do sarcasmo e língua afiada e sabe tirar proveito disso...

-Fechado então... - dei o dinheiro pra ele.

o Garoto contou o dinheiro me agradeceu e antes de sair disse:

- Senhor, não deixe esse couro endurecer não!
- Pode deixar guri -se depender de mim ele não endurece tão cedo.
terça-feira, 8 de maio de 2012 0 comentários

A Patroa

Pega aquela foto que está lá em cima da escrivaninha pra mim garoto!... isso! Aquela que tá Você, sua mãe e eu em cima da moto.

Preciso pensar em um lugar novo pra colocar isso aqui na garagem mesmo. 

Era engraçado como sua mãe fazia questão de não bater fotos perto de minha moto. Mas sempre que você insistia, ela pegava o maior vestido florido (daqueles que a sua avó puritana deu) e fazia a pior cara. Bem, eu não ligava, mas não era a toa que toda foto aparecia você puxando os braços cruzados dela para baixo, e não se assuste! Isso foi à vida toda. 

Mas quer saber? Eu não reclamo disso não. Sua mãe, enquanto esteve comigo e mesmo depois de separada sempre fez um grande papel de “Patroa” de um motociclista. Ela não gostava, mas respeitava. Não apoiava, mas não me impedia de fazer o que eu nasci pra fazer. Não concordava com os tipos de pessoas que eu andava, mas nunca deixou de oferecer uma cerveja quando parávamos todos aqui na garagem antes de uma viagem. E por aí vai. Mas acima de tudo, de tudo mesmo, Ela Sabia o seu lugar. E não pense que eu tive que ensinar ou dar “alguns toques” como dizia você e seus colegas. Uma Patroa de verdade tem este senso Nato.

E esse assunto não está ligado com os serviços “de mulher” numa casa, está ligado com o clube.

Imagine que cada coisa deva ficar no seu devido lugar! Certo? Como essas chaves de boca aí na parede! Você não vai colocar uma chave 9/16 no espaço da 12/14! Ou vai? 

Então. Para um motociclista existem “virtudes” que devem ser distribuídas de forma correta para cada um de seus aspectos em sua vida. Isso não significa que um seja maior que outro. Mas há situações em que, se colocado na balança esses valores, algo PRECISA pesar mais. Então fica claro compreender que a dedicação fica para a sua moto, assim como a prudência fica para a estrada, seu amor fica para sua Patroa e sua honra fica para o clube.

Não peça para colocar coisas tão grandes como essas numa balança porque dependendo da situação uma pode ser tão mais pesada, quanto muito mais leve. Por exemplo: a hora é “essa” para pegar a estrada, mas você se encontra na ressaca desgraçada! Quem é maior? Ou; Sua moto não está arrumada com todos os cuidados que você gostaria que estivesse por uma questão de contratempos, mas não há mais o que se fazer... o encontro é amanhã! Vai ficar em casa? Ou melhor, O clube te chama e sem nenhuma explicação plausível sua Patroa pede que você fique em casa “e lhe promete algo”. E agora o que vem em primeiro lugar?

São questões como as de cima que definem seu compromisso com você mesmo em primeiro lugar. E não me venha com esse papo de altruísmo do seu eu, porque o que fica no final é só você e Você mesmo!

Mas o motivo dessa conversa ainda é outro, embora o assunto ainda seja honra.

Pegando essa foto, eu me recordei de um amigo meu que andou comigo por pouco tempo. Ele era um cara muito pra frente, espalhafatoso e gostava de esbanjar o que tinha de uma forma bem “imprudente”, assim dizendo. Sempre que podia tirava-me um sarro porque minha patroa nunca estava presente as festas, e uma vez, depois de tanto tempo lá estava a minha patroa “bem vestida”, mas não para um evento, na mesma mesa que eu tomando uma cerveja. Quando ele chegou e quis fazer um sarro com “a minha garota”.

Meu limiar de paciência não estava muito alto naquele dia por conta das coisas que passei na estrada e então, mesmo sendo do mesmo clube, perdi a paciência com ele e aí foi tudo pelos ares: Mesas, cadeiras e a cerveja agora estavam no chão e eu trocando socos com o “rapazinho pra frente”. Em volta, todo o clube cercava para que ninguém apartasse a briga, afinal, coisas do clube, se resolvem no clube, mas não significa que precisa ser na Sede. Minha mulher naquela época já sabia com o cara que tinha casado, e só tomou uma distância e já sabia que teria que comprar um bom saco de gelo depois daquilo tudo, mas a garota dele não... A garota dele era linda! Linda mesmo! Imagine uma mulher com uma beleza rara! Isso mesmo filho...

E então lá estava ela tentando separar a briga, porque a mesma não entendia nada sobre o clube. E é lógico que os nossos irmãos não iriam a deixar acabar com a festa, então a seguraram pelo braço; foi quando eu vi a barba do barrigudo roçar no pescoço dela na ideia de tirar uma “casquinha”. Me perdi com aquela ação daquele RATO (sim, é assim que nós chamamos os traidores no clube). E o rapazinho me acertou em cheio no rosto. O soco  eu nem vi, mas com certeza aquela cena da garota eu não esqueci jamais.

Beleza, a briga acabou quando eu caí e toda a galera se dissipou. Ele abraçou por cima do ombro a garota dele e pegou uma cerveja que estava em outra mesa e saiu andando. No meio fio lá estava eu começando a me levantar quando “sua mãe” chegou com uma cerveja:

- Valeu... –eu disse- Opa! Tá congelada!
- Não é pra você beber (mais!) é pra por na boca pra tirar esse inchaço. 
- hum... tá...

E por ali eu fiquei. 

A festa seguiu normalmente e eu evitei passar por perto do... você sabe quem... pra evitar mais cervejas derramadas. Mas tudo continuou bem. Afinal, o cara não é um inimigo, é o meu irmão! E irmãos brigam e brigam muito!

Fim do evento e nós voltamos para casa. O Comboio deslizou pela estrada de forma pacífica sem nenhum contratempo. Casa, banho (até que em fim um banho! Hehe) e cama...

No outro dia, o presidente passou no meu trabalho, um antigo almoxarifado de uma madeireira e me disse que tinha reunião hoje a noite. Acertei as coisas que tinham que ser acertadas no trabalho, peguei minha moto, e fui até a sede. Parei no bar do nosso galpão e abri uma cerveja antes de assentar na mesa. Ninguém chegou. Meia hora e ninguém. Quando de súbito aparece o camarada com quem troquei socos no evento. 

O cara se assentou do outro lado da mesa e acendeu um cigarro. Não demorou muito e outro barulho de moto apareceu lá fora, era a moto do presidente. Ele chegou , sentou-se entre eu (de um lado da mesa) e o cara (do outro lado da mesa), ajustou os anéis na mão direita, e então perguntou: e aí meninas? Como foi a troca de caricias no dia dos namorados? E então cada um riu de si mesmos. E daí saiu aquele sermão sobre não ser desunido, e ainda mais não mostrar desunião fora da sede. Que cada um poderia ser esquentado o tanto que quisesse, mas lá na sua casa, no seu quarto com a sua patroa. E isso todo mundo sabia que ninguém ia querer. 

Quando ele terminou o sermão, deixou a perguntas no ar: Estou sendo claro? Alguma dúvida?

E então, eu, com as mãos ali em cima da mesa, segurando a garrafa, apontei o bico para o cara disse: Fique de olho na sua patroa. Temos ratos até dentro do clube! O presidente me olhou torto, pois conhecia a má fama exterior dos seus membros, mas não aqui dentro. E os olhos do camarada quiseram me perguntar quem era. E eu sem meias palavras, disse o fato que vi.

É claro que ele discordou de mim, e junto disso acrescentou uma série de ironias, até que ele falou da minha patroa. A cena se repetiria se não fosse o presidente com sua automática apontada para nossas pernas, e a pergunta: quem vai ser o primeiro a mancar 3 meses? Porque sem colete vocês já vão ficar um Mês!

Os braços abaixaram e a sentença pesou feio nos nossos ombros. Do lado de fora, cada um saiu por um lado do galpão e pra mim isso já estava demais.

Fui pra casa, enchi a cara, dormi na garagem. Minha patroa não perguntou o que houve, com certeza respeitou o silêncio e o quanto de álcool eu havia digerido. A moto, ficou parada na garagem um mês. Pra mim, pra que moto sem o clube? (...) era o que eu pensava.

Mas com certeza esse Um mês, me valeu de alguma coisa. Foi aí que eu pude sair mais com pick-up e rodar mais aqui dentro do centro da cidade. Foi quando numa noite, numa madrugada pra ser mais sincero, depois da cerveja no clube com os caras, passando pelas quebradas de um bairrozinho que era considerado um “inferninho” da cidade, eu vi a patroa do meu camarada lá da festa. Sim, ela estava com outro. 

Encostei a pick-up, desliguei os faróis, apaguei o charuto. Fiquei olhando pra ver no que ia dar e não precisou de muito tempo até ver o necessário. A guria estava ficando com um camaradinha que tinha um grupo de motos Sport aqui na cidade. 

Embora eu soubesse que o barbudo (aquele que roçou a barba nela lá na festa)  era um filho da puta pelas suas macaquices que ele já tinha feito durante muito tempo, o rato ali não era ele, era a garota.

Liguei pra dois caras do clube e avisei pra eles chegarem onde eu estava e trazer além do deles, o meu bastão também! Aquele que tinha arame farpado em volta da ponta.

A Festa dentro da lanchonete rolava solta e aqui fora agente refazia a lataria das Rayabusas e R1’s dos otários lá dentro. Foi quando um apareceu pra atender o celular, viu tudo e voltou correndo lá pra dentro. Não demorou muito até os “jaspions” aparecerem ali fora. Mas o cara que voltou não tinha avisado que agente tava com os bastões... mas aí já era tarde. Ninguém levou nada na cara dessa vez. E talvez nem no corpo (por causa da Armadura japonesa). Mas sobre hematomas... eu já não posso falar nada.  Hehehe

A garota assustada quando me viu começou a gritar e então eu fiz sinal de silêncio pra ela e cheguei perto dela e disse: Entra no carro agora! 

Liguei a pick-up e disse pros caras. Daqui pra frente eu tomo conta. E fui embora...

Peguei o bastão de base Ball e encostei perto do pescoço dela enquanto dirigia com a outra mão. E disse: 

- Cê não vai querer que isso te encoste né?
- Pra onde você tá me levando?

Fiquei em silêncio. É claro que ela reconheceu o bairro, mas não quis dizer nada, por alguma justificativa.

Cheguei na porta da casa do camarada, arranquei a garota de dentro da pick-up e arrastei ela pela jaqueta até o jardim da casa dele.

Gritei o nome dele até a luz acender no andar de cima e ele aparecer sem camisa.

- Ta aqui ó! Cê perdeu essa merda lá no “inferninho”.
Ao que ele respondeu gritando Tb – com tom de desdém:
- Só que essa “merda aí” não é minha mulher mais! Terminamos ontem!

Era claro que o clube falara muito mais alto, e depois eu descobri que ele tinha terminado porque na hora que a briga estava rolando alguém fotografou e a foto foi parar no diário local do evento. E adivinha só: A foto era bem na hora do soco que eu tomei... No plano de fundo estava lá, a garota dele (ou melhor, Ex Garota dele)  com o pescoço debaixo da barba do Rato do nosso clube.

Então deixei a mulher lá... com os braços cruzados no meio do frio, entrei na pick-up e fui embora. Pelo retrovisor vi a garota se virar para frente da janela dele, e a janela dele se fechar, e a luz se apagar.

A semana passou rápido e então ele veio se desculpar sobre como agiu no evento, e me agradecer, que mesmo eu sem saber se eles estavam juntos ou não, e mesmo com problemas entre nós, o que valeu acima de tudo foi a irmandade.

E quanto ao rato? Você deve estar se perguntando... bem, levando em consideração de que ele é homem também e tem as mesmas tentações que nós, eu até o adsorveria. Mas não posso negar que a hora dele chegou bem rápido. E não foi nem pela minha mão, nem pela mão de ninguém. Foi pela mão do tempo... mas isso já é uma outra história.

quarta-feira, 2 de maio de 2012 0 comentários

Ultrapassar

Falamos a tanto tempo de "coisas da garagem" que as vezes nos esquecemos que a real emoção está na estrada. E não é uma ou outra vez em que estamos na estrada que nos sentimos bem, é SEMPRE! Sentir-se mal ou desconsertado é um desvio de curso que em geral até a própria estrada conserta (se não na ida, com certeza na volta). Mas não há uma das coisas que me coloca para pensar mais do que uma ultrapassagem.

Eu poderia até retirar aqui os valores de kilômetros por hora, torque ou mesmo a cilindrada de qualquer moto, mas o que fica na minha cabeça quando eu ultrapasso um carro é muito mais do que apenas um golpe de vista, uma rajada de vento de um caminhão que acaba de passar ou mesmo as condições da estrada. o que fica na minha cabeça é a vida de cada um que eu ultrapassei, transcendi, deixei para trás.

Sabe filho, quando eu era pequeno, me assentava na janela do sótão do celeiro do meu pai e ficava vendo a movimentação das pessoas ali por perto. Muita gente vinha comprar cereal do rancho de meu velho e por ali eu ficava... balançando as perninhas e brincando com uns fiapos dos fenos que se soltavam e ficava imaginando a história de cada um que vinha ali fechar negócio com ele. Sabe? Quem era a mulher daquele homem barbudo? Quantos filhos já teve esse outro velho? E essa mulher magra aí?! será que passa fome de verdade? e por aí eu ia... Mas o tempo passou e eu cresci e vi todas as coisas mais importantes que eu tinha naquela época escorregarem por entre os meus dedos! 

Olha filho, o tempo passa rápido demais! Mais rápido do que os números do odômetro.

E então eu cresci.

Algumas coisas, a poeira da idade encardiu ao ponto de eu nunca mais enxerga-las. Mas, há outras coisas que com certeza fazem muita diferença para mim até hoje. como é o caso de imaginar a história da vida de cada um. A clareza da estrada te permite esse tipo de reflexão sempre!

Quando eu era criança eu tinha muito que imaginar, hoje, depois de tanto tempo, basta olhar para o rosto de uma pessoa e já há muita coisa da vida dela ali escrito e não há nada mais claro de se ler do que cada rosto dentro de um carro de família quando se ultrapassa.

É claro que exceções existem e os papéis podem ser variados,  mas não tem nada mais fantástico do que ultrapassar um carro de família bem depois do almoço. E a cara de cada um é mais diferente da outra. por exemplo:

O filho mais novo do casal, pendurado no vidro da janela assiste um espetáculo de liberdade sobre duas rodas, e o brilho nos olhos não mentem que há uma chama que ainda existe em raros espíritos contrários a esse sistema idiota chamado Mundo. 

A filha mais velha, recostada para trás com o fone de ouvido, levanta-se repentinamente, mas ao perceber o que se trata, volta novamente a sua posição comoda, de não fazer nada e deixar o curso desse mundo. não a julgo, esse tipo de pessoa precisa existir para que eu diga aos meus filhos: Olha! nunca sejam como aquela garota lá! (...) 

O pai, como sempre dirigindo, com uma cara fechada (mas não de bravo), mas sim de frustrado com as contas, com a família ou sei lá mais o que, pragueja no seu próprio pensamento o quão marginal é o delinquente que está o ultrapassando agora. E por último e não menos importante, a mãe da família! 

Tenho certeza que se essa coroa tivesse umas Tattoo e um jeans rasgado ainda daria muito caldo. Mas lá está mãe de dois filhos, com os braços cruzados e olhando para a estrada... num pequeno, quase imperceptível instante ela olha no retrovisor do seu lado e em seguida acompanha minha ultrapassagem. O marido não consegue perceber a expressão de sua esposa pois está ranzinza o suficiente com suas rabugices. mas neste mesmo instante, aquela mulher imagina se sua vida tivesse tomado outros rumos e naquela garupa não estivesse colchonete ou alforges, mas sim, Ela. 

E com uma tentativa de fechada do motorista eu o ultrapasso não somente o carro, mas os conceitos fechados deste mundo velho demais para se renovar. deixando assim, aspirações de uns, o comodismo de outros, as ranzinzices de outros e o arrependimento de outros (e que ainda têm tempo enquanto respiram).


segunda-feira, 30 de abril de 2012 0 comentários

Valhalla

Sabe filho, é meio que difícil voltar de um funeral como esses. Afinal de contas não é um funeral comum. É um funeral de um motociclista, de um verdadeiro motociclista! De  um irmão de estrada que fatalmente por um descuido dele mesmo, ou um problema na moto, ou de outro (na sua direção) não permitiu que ele estivesse na nossa reunião e nem em nenhuma mais. 
E isso talvez seja triste.

[retirando-se do local do enterro e cumprimentando os outros 'irmãos' apenas com o aceno da cabeça, com o colete fechado e as mãos nos bolsos].
 
Te estranha o fato de eu dizer o "talvez"? é... eu sei que estranha. Mas da última vez que estive num encontro de motociclistas perto da antiga cidade onde eu morava quando jovem, aprendi uma coisa que pode ser o suficiente para acalmar uma dúvida do coração.

Assentava-se eu então a uns bons anos atrás com alguns conhecidos meus e comentávamos sobre os outros motociclistas que estavam para chegar no evento e pouco a pouco fomos nos lembrando dos nomes mais conhecidos do público e que consequentemente se destacavam em nossa memória. Até que alguém citou o nome de um motociclista amigo nosso que falecera a dois meses do evento. Então o anfitrião do evento que estava na mesa e nos dava as coordenadas de cada um que estávamos 'listando' coçou a barba e disse meio que desconsertado ou mesmo evitando o assunto: ah! esse aí agora está andando em outras estradas... estradas muito melhores do que a nossa. Todos se entre olharam... Olharam para baixo... Uns deram mais um gole na cerveja e outros pigarrearam... e a conversa (pelo menos essa conversa) terminou ali.

É claro que a conversa acabou por aí, mas não o pensamento e a memória. Intrigado, fui até o pátio do evento, deitei na grama, pus o chapéu de lado e acendi um charuto. Ali deitado mesmo observava a fumaça que saia do charuto e se confundia com as nuvens e terminantemente me recordava do camarada que marcou a minha história no motociclismo, mas que nos deixou.

Ele era já velho fisicamente, mas seu espírito era de dar inveja em muitos! eu tinha uma foto com ele pregada lá na garagem, pode conferir depois. atrás dela está escrito: META! porque com certeza eu queria ser como ele quando crescesse. 

Mas ali mesmo deitado na grama, enquanto ouvia a passagem do som e alguns motoclubes recém chegados colocavam suas bandeiras num imenso varal, me peguei pensando sobre o que há do outro lado. Sobre o que tantos caminhos (religiões) e fé levaram a homens a acreditar, e ainda mais, qual é o motivo de desespero para uns e descanso para outros? uma vez que ninguém sabe ao certo o que é o outro lado.

Ainda que algum desses caminhos esteja correto (e eu não duvido disso) há alguns que nos propiciam pelo menos um conforto momentâneo. E são nesses que sem lógica ou fundamento nos agarramos periodicamente para nos confortar nas noites sem nossos finados amigos.

Mas uma história em especial me levou a Re-pensar o 'outro lado'.

Há uma certa tradição nórdica que diz que quando o guerreiro morre com honra (ou seja na batalha), sua alma é levada separadamente do corpo por Valkirias (uma espécie de 'anjas' ruivas ou loiras) para o Valhalla, o céu dos vikings (lê-se Valrala) e lá ele receberia as honras por seus feitos aqui.

Em Valhalla não havia muita coisa a se fazer, na verdade haviam apenas 4 coisas: Caçada à Cavalos pela manhã, Combate armado pela tarde, e um grande Festim com os frutos da Caça da manhã, cerveja e muitas mulheres ... e "isso" era eternamente. 

É como se diz num antigo texto que li:
"Lá as presas andam mais devagar, a carne é mais suculenta, a cerveja é mais forte, nos combates não há morte ou derramamento de sangue daqueles que amamos e as mulheres são todas muito, mas muito lindas!"

É claro que nosso amigo não está num céu como esses nunca, nem aqui, nem em Valhalla. Mas o que me impediria de preencher esse vazio (de onde ele está)? senão minha própria criatividade.

É por isso que acredito eu que os nossos irmãos de estrada que partiram dessa para melhor estão verdadeiramente NA MELHOR. Um lugar onde a moto nunca estrague, que a gasolina nunca acabe e que a estrada tenha no mínimo 5 mãos de cada lado e o asfalto seja como um 'tapete'. Nas paradas há sempre garçonetes lindas com os 'alforges' bem grandes e uma garupa de chamar a atenção de todos. Lá elas servem a cerveja mais gelada, e dão bola para os nossos irmãos! O caixa não recebe nem dinheiro e nem cartão, pois anota tudo para todos sempre sem nunca cobrar. Logo mais adiante... para ser sincero... bem longe (para ter que andar MUITO de moto) tem um motofest maravilhoso com uma recepção calorosa e agradável feita pelos outros amigos nossos que já se  foram. Enquanto Mais Garotas recepcionam as motos lavadas ali mesmo. Antes de anoitecer todos os Grandes nomes do Rock veem trocar idéia como se fosse um qualquer perto deles, e lhes pedem a benção para tocar muito bem, ganham adesivos e botons e os pregam na bateria e guitarra como um símbolo de reconhecimento e amizade. Por lá a essas horas a noite parece que nunca acaba. Pelo menos enquanto há cerveja e rock'n roll tocando. Depois de um tempo (não um dia, ou um fim de semana, é um tempo mesmo). Todos se retiram, mas não para sua casa, pois a sua casa agora é ali, na estrada. E então partem para festejar a vida em outros lugares,"em outras estradas , estradas muito melhores que a nossa". 

e eu acho que é isso.













quarta-feira, 28 de março de 2012 0 comentários

A Última Ceia

Da última vez que visitei a casa de minha falecida mãe, notei com muita atenção aquele quadro do Cristo assentado com seus discípulos lado a lado na mesa. 

Eu já era um homem formado, tinha barba e cabelos longos  desgrenhados, tinha uma história marcada em cada cicatriz no rosto e nos braços e ainda sim não conseguia revidar os puxões de orelha daquela velha! 

Ah filho! lembro-me como se fosse ontem, e ontem mesmo enquanto organizava algumas coisas aqui na garagem, reencontrei esse velho quadro... Sujo, já sem moldura e com as pontas desgastadas pelo mal estoque. Ainda sim me levou a questionar uma coisa muito útil quando era Jovem: Quem... ou melhor, quantos devem se assentar na mesma mesa que eu? 12? Com certeza não era a resposta, afinal, um deles foi o traidor (sim filho, refiro-me ao Judas)....rs... mas esses também são inevitáveis.

Ainda sim,  no início do clube, me perguntava: quantos devem assentar-se à mesa comigo? E essa pergunta me martelou muito tempo... não TODO o tempo, mas sim muito tempo. Tempo suficiente para que eu pudesse descobrir que eu só posso ter em minha mesa quem eu possa passar a comida de minha mão para a mão dele.

De fato não quero resumir a um número exato. Mas se você só tem uma mesa para 4 cadeiras, não deixe um ou dois irmãos de pé (diminua o número de Irmãos). Caso você tenha 12 irmãos, prepare-se para levantar periodicamente da sua cadeira (e entenda isso como DAR TRABALHO na vida real) e ir até o último da mesa, toda hora e servi-lo. Agora se você se encontra em lanchonetes (o que já é uma piada) e precisa de mais do que 4 mesas... pode ter certeza de que existe mais de um clube ali... infelizmente.

Ter os Seus, não significa possuí-los. Mas sim, estar completamente disponível para todos e qualquer um na ocasião necessária. Há quem diga que se você consegue visitar um por dia na semana para manter o papo individual em dia (ou seja, um clube com você e mais 7), você terá soldados que iriam até o inferno com você (ou por você).

O princípio deste raciocínio é muito próximo da "qualidade ser maior do que a quantidade". Mas eu digo mais, filho. O princípio da convivência de uma matilha como essa, torna-se muito melhor, quando não há comboios-dentro-de-comboios, em que "tal pessoa" é amigo de um ou outro, mas não dessa ou daquela pessoa. 

Ao mesmo tempo todos não precisam ser braços-direito uns dos outros 100%. Mas com certeza devem ter a consciência de que todos os que vestem o mesmo colete tem que assinar como "o Clube" as ações dos outros (e isso implica sofrer as consequências também). É deixar de lado as vontades próprias para uma ideia maior.
semelhante ao cabeludo que tá no centro do quadro.

Minha mãe falava todas as vezes que me pegava vendo este quado lá na cozinha, que o cabeludo rasgou um pedaço de pão, dividiu com seus irmãos e foi a ultima vez que ele fez isso antes de morrer. Pode parecer estranho, mas eu não como um pão como aquele que minha mãe fazia ha décadas. Mas com certeza eu sei que um número bom de irmãos em uma mesa, é aquele que você consegue partir o mesmo pão para todos e cada um ter o suficiente para se alimentar e seguir em frente. Que esses irmãos assentem-se na mesa com você e que celebrem o dia, a noite, a vinda, a ida, a moto, a estrada e a vida como se fosse a última vez. 

como se fosse a última ceia em um dia de tempo ruim.

e aí, se for a última ceia mesmo, você vai ter certeza de que viveu bem, por que viveu intensamente os seus melhores dias em volta de sua verdadeira família.
domingo, 25 de março de 2012 0 comentários

In Habitat

          Ha um tempo atrás quando quando eu era bem inexperiênte no quesito MOTOCICLISMO e organizei um ideal pessoal para um motoclube, resolvi fazer meu próprio escudo e sair por aí. Não tinha ideia (ou pretensão) de adquirir uma "tripulação" ou mesmo ampliar para outros membros.

     Estava chateado com o que se tornou (ou que sempre foi) a liderança e alguns membros do antigo motoclube ao qual pertenci (mas isso ficará para uma outra história). O fato é que uma garota me chamou para acertar as contas de um antigo relacionamento meu que por um motivo sem respostas claras foi terminado; Como ela morava muito longe não havia possibilidades de um encontro cara a cara por demandar gastos, mas logo adiante estava uma oportunidade interessante: A família dela passaria o natal numa cidade vizinha e eu tinha como colocar os pingos nos "is".
          Chequei só no olho minha moto de baixo em cima. coloquei minha calça, bota, luvas, jaqueta (como sempre fiz) e o colete novo por cima da jaqueta. Coloquei também minha mochila nas costas com um livro que estava devendo entrega-la, enchi o tanque e peguei a estrada. (isso eram umas 17:30)

          Quilômetros a diante eu percebi que o tempo começou a fechar e por isso resolvi no abrigo de uma churrascaria na beira da estrada, para passar minha mochila para dentro da jaqueta. assim ela ficava justa em mim e ainda por cima não molharia o livro.

          Desci, troquei todas as coisas e montei na moto. na época ela ainda não estava com a bateira arriada e portanto bati o "start" e a moto ligou. passei a primeira e soltei a embreagem levemente... Um barulho triste e estrondoso aconteceu dentro do motor, como se eu estivesse chacoalhando um punhado de colheres dentro de uma caneca de alumínio de colocar água para o café.

          Desci da moto novamente e tentei entender logo ali em cima da moto o que estava acontecendo e sem muito entendimento retornei a churrascaria e perguntei se eu pudesse ligar para minha casa para tentar resolver isso com o meu pai. mas as ligações não completavam. quando um dos homens que estavam ali na churrascaria disse: sua corrente apenas saiu! e eu acostumado apenas com bicicleta, coloquei a corrente na coroa da moto, empurrei-a e "pronto"! lá estava a corrente colocada. eu sabia que ela estava muito bamba, mas como eu não sabia como esticá-la, resolvi apenas "andar devagar" até chegar no destino.
          
          Alguns quilômetros adiante resolvi parar numa oficina (eu já estava começando a tomar chuva e o tempo fechava ainda mais). o mecânico pacientemente remendava  a roda de um caminhão e com muito desdem disse que se eu esperasse uns 40 minutos ele veria se dava pra fazer algo para mim. Indignado por não saber resolver o problema sozinho e com o desdem do mecânico resolvi seguir viagem e subitamente fui atingido pela chuva.

          As gotas me acertavam como flechas na altura do pescoço e minha viseira já não me permita ver muita coisa, quando de repente um oásis surge... Um posto de gasolina com uma plataforma bem grande (em forma de abrigo) pronto para me acolher até a pesada chuva passar. Não pensei duas vezes: Dei a seta para direita e desci o degrau de asfalto para um espaço de terra e depois percebi que havia logo adiante uma entrada "oficial" de paralelepípedos até as bombas de gasolina. parei a moto encostei as costas no sissibar, cruzei os braços e por lá fiquei.

         A chuva espancou o posto como um bêbado faz a um cachorro vira-latas... Faltou luz 4 vezes por uns 30 minutos cada, com um intervalo de 10 minutos entre uma queda e outra. sem muita paciência e já andando de um lado para o outro resolvi montar na moto e seguir caminho... mas não estava para mim aquele dia...

          Ao sentar na moto percebi que o pneu traseiro estava completamente vazio e sem muita esperança eu resolvi procurar o borracheiro do posto.

          O cara demorou uns 20 minutos (10 minutos do intervalo entre a 3 e quarta queda de luz e os 10 minutos de apagão da 4ª queda de luz)... mas em fim chegou. como estava somente escuro, pude perceber apenas duas coisas 1ª a silhueta era baixa e o mecânico era negro. não que essas características fizessem diferença, mas foram as duas primeiras características (das três) que eu pude perceber.

          Falei que minha moto estava com o pneu furado e que precisava remendá-lo além de esticar a corrente. prontamente ele me fez sinal sobre a luz da tela do meu celular, de que ele era mudo e surdo e não estava entendendo o que eu queria... Pronto. perdido na puta que o pariu, de noite, no escuro, com o pneu furado, com a corrente solta e o mecânico era mudo. o que mais me falta??? (a maldita pergunta tinha sido feita).

          Expliquei com gestos e mostrando o pneu o que eu queria que ele fizesse e então ele entendeu... pegou suas chaves de boca e tentou sem sucesso algum retirar a porca de minha moto (que por sinal era exatos "um" número e menos que o modelo padrão de motocicleta). Em seguida mexeu na carenagem lateral de minha moto sinalizando para ver se eu poderia pegar as ferramentas oficiais da moto que ficavam numa bolsinha debaixo da bateria... exatamente como eu escrevi: QUE FICAVAM... porque o inteligente que vos escreve neste momento havia deixado o mesmo kit em casa durante a ultima lavagem da moto. e agora estava completamente ferrado.
         
       Sem muitas escolhas cancelei todo aquele silencioso serviço e pedi apenas para que ele enchesse o pneu, na esperança daquilo ser apenas um esvaziamento repentino (pensamento positivo esse! né?) e então segui viagem. 

        Andei bons quilômetros até que o pneu começasse a deslisar sobre o asfalto molhado e por fim num rebolado muito forte fui obrigado a encostar a motocicleta que de uma forma muito natural morreu. ela parecia cansada em relação à viagem, como se aquilo tivesse vida. em fim parei. de sorte que parei exatamente na encruzilhada para a entrada de uma nova cidade e então pedi para que os donos da casa (que ainda estavam acordados) pudessem receber minha moto lá, pois eu precisava entrar em contato com um guincho (no caso, meus pais) para poder busca-la e só conseguiria fazer isso num posto policial que eu sabia que tinha logo a frente.
          
          Os donos da casa me informaram que o posto estava a exatos 1 quilômetro e que eu poderia deixar minha moto lá sim, mas que não passasse de um dia. concordei e no susto até deixei a chave na ignição...

          E então resolvi caminhar na beira da estrada....

          A chuva tinha se transformado numa pequena garoa e o peso do couro e da mochila já não fazia diferença. com um capacete na mão e andando do lado direito da estrada eu me pus a caminhar até o posto.
Eu poderia descrever como foi um símbolo de salvação ver aquele posto (justamente como um farol em alto mar), mas de fato devo descrever o que foi caminhar aquele exato 1 quilometro pra mim.

         Em minha primeira viagem com o novo colete pude perceber de que a necessidade de estar em comboio (ou matilha, ou família, ou bando... como preferir) é tão importante como necessário. Segundo, que por mais que você tente compreender que naquele momento era apenas a noite (no caso a ausência de sol) e todo movimento no capim com o seu som se torna 4 vezes maior e mais rápido, pude perceber que se eu precisasse passar para o outro lado da cerca da propriedade próxima eu não teria medo algum. percebi também que embora estivesse a pé, estava em casa (ou no termo técnico em latin: In Habitat) e buscar um abrigo , pedir um reforço ou consertar uma moto era apenas uma questão de contratempo ou aquisição de experiência mesmo. Sem mais resolvi viver aquele momento com muita tranquilidade. ninguém passou por mim e tão pouco haviam dúvidas sobre o que viria após as curvas. não estava preocupado com isso. e então caminhei livre.

          Quando cheguei ao posto o guarda de plantão estava resolvendo o problema no carro de dois tontos que só faziam trapalhadas com o capô aberto. disse o porque eu estava ali e o consegui fazer algumas ligações no telefone público que ainda funcionara. o guarda viu que eu estava muito molhado e com frio e me ofereceu um copo de café bem cheio e quente. agradeci e me sentei na garagem do posto. arranquei a jaqueta, abri a mochila e pus me a ler o livro que eu estava para entregar. não demorou muito até que um amigo de meu pai viesse me buscar e mesmo sem completar "a missão" naquele dia, eu já poderia voltar para casa (assim como o fiz) com muitas lições aprendidas, experiencias adquiridas e maturidade digamos assim... "ajustada".
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012 0 comentários

constancia

Do tempo que me sobrou após a morte de minha esposa, pouco me dediquei a novas atividades, senão à oficina e a estrada. Amigos? Ha muito tempo não os vejo - mesmo porque muitos deles, ainda em "vida" já morreram - mas a verdade é que meu espírito ainda se satisfaz só com o vento no rosto e o asfalto. Mas nem tudo é sempre cinza(s).

Certa Vez, fui visitado por um velho amigo do meu tempo de cabelo preto. Magro e encurvado, não consegui reconhece-lo quando deu as caras aqui na garagem, Mas foi o simples fato de ver todas aquelas tatuagens enquanto ele retirava a jaqueta do Exército (ao qual ele nunca serviu), que todas as minhas memórias foram restauradas como se entre a última vez que o vi e hoje, fosse apenas um fim de semana.
Velho e acabado, como eu, não perdeu os bons costumes: Chegou de moto, bebeu um whiskey e aceitou um charuto que lhe ofereci.

-Como vai essa força aí, meu "jovem" ? - Perguntei
-Já fui bom nisso! - Respondeu ele olhando para os posters com mulheres sentadas em Harleys, pregados na parede... Em seguida, viu a cabeça e com a cara de bem sacana me perguntou: Dizias?

O filho da puta era ainda o mesmo! Para minha alegria. Limpei as mãos de graxa numa bacia com gasolina e o convidei até o antigo escritório onde ainda havia cervejas no frigobar.
Conversamos muito, rimos dos bons tempos que um taco de baseball resolvia alguns problemas no bairro vizinho, recordamos também de cada história que cada cicatriz em cima de uma das tatuagens carregava e lembramos disso com orgulho.

Certo ponto da conversa, ele me perguntou de um amigo em comum, que muito se deu bem na vida, mas que nunca foi tão frequente na estrada quanto nós:

-E aí? O que será que aconteceu com ele? - Perguntou.
-Não sei, viu... Se já era raro encontrá-lo pela estrada antigamente, quem dirá agora.
-Um motociclista e tanto, né? - enquanto virava uma garrafa.
-Não... - enquanto eu virava a outra.
-Não? como não? Vocês tinham moto antes de mim, contavam histórias antes de mim, o que houve?
-Nada, acredito que eu não tenho o poder de julgar ninguém, mas... - Dei outro gole na cerveja.
-Mas? (...)
-Mas eu acredito que motociclismo é uma coisa muito mais instável do que fixa. O fato de ter uma "mil" não faz de você um motociclista. Há uma gama de idéias e Ações, que lhe descrevem como motociclista. E se você para de rodar, não é motociclista... é apenas história.

Ele maneou a cabeça para frente segurando a garrafa entre os dedos e concordou comigo. Mas ainda sim, insistiu: 
-O que você pensa disso?
-Meu velho, não posso julgar ninguém para ninguém. o que eu faço é apenas acertar o foco de como é o mundo pra mim; e nesses meus velhos e grossos óculos eu tento desburocratizar tudo, o máximo possível. Para mim, não  há diferença entre certas nomeclaturas (como motociclista e motoqueiro, por exemplo). O que existe é: Alguém que nasceu para isso e alguém que já está tempo demais ainda em cima de uma moto...
-He he he... e eram esses os mais gostosos de derrubar! lembra?
-Claro! Mas, deixe-me continuar. Na minha visão, a única "diferença" existente é de motociclistas e apreciadores.
-Como o caso dos colecionadores?
-Mais ou menos. Deixe-me dar um exemplo: Meu falecido sogro possuiu um interessante histórico com motos: Aos 15 anos ele ganhou de seu pai sua primeira moto. Junto com os outros irmãos (que também já tinham o mesmo presente) eles andaram muito. Visitaram cidades por onde nunca passamos e cidades que também já passamos. Minha sogra sempre contava a história de quando o conheceu, de que ele estava sempre de moto e adicionava os detalhes dos seus encontros como: "O barulho do motor daquela motona"... eles se casaram, e há uma foto dos dois em cima da mesma moto...

Quando minha esposa cresceu e pôde pilotar uma moto, foi ele quem a presenteou com uma; era ele que sempre fazia os reparos na moto: troca de óleo, calibragem, limpeza e etc... O velho tinha uma coleção de miniaturas de dar inveja além de todas as revistas dos últimos 15 anos antes de sua morte. Sem dúvida, um exemplo a se espelhar. Mas tão certo quanto a minha e a sua Harley ligam da mesma forma do que 30 anos atrás e estão prontas para uma viagem de 40 dias no deserto, eu te digo com todas as palavras que ele nunca foi um motociclista.

Motociclismo é uma junção; não, não estou falando de mecânica, mas é quase isso. Motociclismo se faz com 3 coisas: Espírito livre, moto e tempo (muito tempo) em cima dela. caso você só tenha o espírito livre ou só a moto, não exite em ser chamado de Hippie ou colecionador...

Ser motociclista é como o outro lado da balança em referência a sua vida "certa" (trabalho e família e etc.). Para tudo isso funcionar, as coisas precisam estar equilibradas (se não, tombadas mais para o lado da garagem). E não pense que é utópico, ou até errado. Viver uma utopia boa (de uma maneira geral) é uma dádiva para poucos.

O velho que estava ali comigo sorriu ao contemplar sua própria vida e perceber então que "apostou bem" seu dinheiro, sua vida e sua saúde em cima de uma ideia com duas rodas.

-...E digo mais, ponderar uma vida em volta de uma paixão é uma das coisas mais nobres de se fazer. Mas, dizer que foi casado com a Marilyn Monroe, só porque viu as fotos dela num poster dessa parede, meu velho... aí é outra coisa.

 
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