terça-feira, 8 de maio de 2012

A Patroa

Pega aquela foto que está lá em cima da escrivaninha pra mim garoto!... isso! Aquela que tá Você, sua mãe e eu em cima da moto.

Preciso pensar em um lugar novo pra colocar isso aqui na garagem mesmo. 

Era engraçado como sua mãe fazia questão de não bater fotos perto de minha moto. Mas sempre que você insistia, ela pegava o maior vestido florido (daqueles que a sua avó puritana deu) e fazia a pior cara. Bem, eu não ligava, mas não era a toa que toda foto aparecia você puxando os braços cruzados dela para baixo, e não se assuste! Isso foi à vida toda. 

Mas quer saber? Eu não reclamo disso não. Sua mãe, enquanto esteve comigo e mesmo depois de separada sempre fez um grande papel de “Patroa” de um motociclista. Ela não gostava, mas respeitava. Não apoiava, mas não me impedia de fazer o que eu nasci pra fazer. Não concordava com os tipos de pessoas que eu andava, mas nunca deixou de oferecer uma cerveja quando parávamos todos aqui na garagem antes de uma viagem. E por aí vai. Mas acima de tudo, de tudo mesmo, Ela Sabia o seu lugar. E não pense que eu tive que ensinar ou dar “alguns toques” como dizia você e seus colegas. Uma Patroa de verdade tem este senso Nato.

E esse assunto não está ligado com os serviços “de mulher” numa casa, está ligado com o clube.

Imagine que cada coisa deva ficar no seu devido lugar! Certo? Como essas chaves de boca aí na parede! Você não vai colocar uma chave 9/16 no espaço da 12/14! Ou vai? 

Então. Para um motociclista existem “virtudes” que devem ser distribuídas de forma correta para cada um de seus aspectos em sua vida. Isso não significa que um seja maior que outro. Mas há situações em que, se colocado na balança esses valores, algo PRECISA pesar mais. Então fica claro compreender que a dedicação fica para a sua moto, assim como a prudência fica para a estrada, seu amor fica para sua Patroa e sua honra fica para o clube.

Não peça para colocar coisas tão grandes como essas numa balança porque dependendo da situação uma pode ser tão mais pesada, quanto muito mais leve. Por exemplo: a hora é “essa” para pegar a estrada, mas você se encontra na ressaca desgraçada! Quem é maior? Ou; Sua moto não está arrumada com todos os cuidados que você gostaria que estivesse por uma questão de contratempos, mas não há mais o que se fazer... o encontro é amanhã! Vai ficar em casa? Ou melhor, O clube te chama e sem nenhuma explicação plausível sua Patroa pede que você fique em casa “e lhe promete algo”. E agora o que vem em primeiro lugar?

São questões como as de cima que definem seu compromisso com você mesmo em primeiro lugar. E não me venha com esse papo de altruísmo do seu eu, porque o que fica no final é só você e Você mesmo!

Mas o motivo dessa conversa ainda é outro, embora o assunto ainda seja honra.

Pegando essa foto, eu me recordei de um amigo meu que andou comigo por pouco tempo. Ele era um cara muito pra frente, espalhafatoso e gostava de esbanjar o que tinha de uma forma bem “imprudente”, assim dizendo. Sempre que podia tirava-me um sarro porque minha patroa nunca estava presente as festas, e uma vez, depois de tanto tempo lá estava a minha patroa “bem vestida”, mas não para um evento, na mesma mesa que eu tomando uma cerveja. Quando ele chegou e quis fazer um sarro com “a minha garota”.

Meu limiar de paciência não estava muito alto naquele dia por conta das coisas que passei na estrada e então, mesmo sendo do mesmo clube, perdi a paciência com ele e aí foi tudo pelos ares: Mesas, cadeiras e a cerveja agora estavam no chão e eu trocando socos com o “rapazinho pra frente”. Em volta, todo o clube cercava para que ninguém apartasse a briga, afinal, coisas do clube, se resolvem no clube, mas não significa que precisa ser na Sede. Minha mulher naquela época já sabia com o cara que tinha casado, e só tomou uma distância e já sabia que teria que comprar um bom saco de gelo depois daquilo tudo, mas a garota dele não... A garota dele era linda! Linda mesmo! Imagine uma mulher com uma beleza rara! Isso mesmo filho...

E então lá estava ela tentando separar a briga, porque a mesma não entendia nada sobre o clube. E é lógico que os nossos irmãos não iriam a deixar acabar com a festa, então a seguraram pelo braço; foi quando eu vi a barba do barrigudo roçar no pescoço dela na ideia de tirar uma “casquinha”. Me perdi com aquela ação daquele RATO (sim, é assim que nós chamamos os traidores no clube). E o rapazinho me acertou em cheio no rosto. O soco  eu nem vi, mas com certeza aquela cena da garota eu não esqueci jamais.

Beleza, a briga acabou quando eu caí e toda a galera se dissipou. Ele abraçou por cima do ombro a garota dele e pegou uma cerveja que estava em outra mesa e saiu andando. No meio fio lá estava eu começando a me levantar quando “sua mãe” chegou com uma cerveja:

- Valeu... –eu disse- Opa! Tá congelada!
- Não é pra você beber (mais!) é pra por na boca pra tirar esse inchaço. 
- hum... tá...

E por ali eu fiquei. 

A festa seguiu normalmente e eu evitei passar por perto do... você sabe quem... pra evitar mais cervejas derramadas. Mas tudo continuou bem. Afinal, o cara não é um inimigo, é o meu irmão! E irmãos brigam e brigam muito!

Fim do evento e nós voltamos para casa. O Comboio deslizou pela estrada de forma pacífica sem nenhum contratempo. Casa, banho (até que em fim um banho! Hehe) e cama...

No outro dia, o presidente passou no meu trabalho, um antigo almoxarifado de uma madeireira e me disse que tinha reunião hoje a noite. Acertei as coisas que tinham que ser acertadas no trabalho, peguei minha moto, e fui até a sede. Parei no bar do nosso galpão e abri uma cerveja antes de assentar na mesa. Ninguém chegou. Meia hora e ninguém. Quando de súbito aparece o camarada com quem troquei socos no evento. 

O cara se assentou do outro lado da mesa e acendeu um cigarro. Não demorou muito e outro barulho de moto apareceu lá fora, era a moto do presidente. Ele chegou , sentou-se entre eu (de um lado da mesa) e o cara (do outro lado da mesa), ajustou os anéis na mão direita, e então perguntou: e aí meninas? Como foi a troca de caricias no dia dos namorados? E então cada um riu de si mesmos. E daí saiu aquele sermão sobre não ser desunido, e ainda mais não mostrar desunião fora da sede. Que cada um poderia ser esquentado o tanto que quisesse, mas lá na sua casa, no seu quarto com a sua patroa. E isso todo mundo sabia que ninguém ia querer. 

Quando ele terminou o sermão, deixou a perguntas no ar: Estou sendo claro? Alguma dúvida?

E então, eu, com as mãos ali em cima da mesa, segurando a garrafa, apontei o bico para o cara disse: Fique de olho na sua patroa. Temos ratos até dentro do clube! O presidente me olhou torto, pois conhecia a má fama exterior dos seus membros, mas não aqui dentro. E os olhos do camarada quiseram me perguntar quem era. E eu sem meias palavras, disse o fato que vi.

É claro que ele discordou de mim, e junto disso acrescentou uma série de ironias, até que ele falou da minha patroa. A cena se repetiria se não fosse o presidente com sua automática apontada para nossas pernas, e a pergunta: quem vai ser o primeiro a mancar 3 meses? Porque sem colete vocês já vão ficar um Mês!

Os braços abaixaram e a sentença pesou feio nos nossos ombros. Do lado de fora, cada um saiu por um lado do galpão e pra mim isso já estava demais.

Fui pra casa, enchi a cara, dormi na garagem. Minha patroa não perguntou o que houve, com certeza respeitou o silêncio e o quanto de álcool eu havia digerido. A moto, ficou parada na garagem um mês. Pra mim, pra que moto sem o clube? (...) era o que eu pensava.

Mas com certeza esse Um mês, me valeu de alguma coisa. Foi aí que eu pude sair mais com pick-up e rodar mais aqui dentro do centro da cidade. Foi quando numa noite, numa madrugada pra ser mais sincero, depois da cerveja no clube com os caras, passando pelas quebradas de um bairrozinho que era considerado um “inferninho” da cidade, eu vi a patroa do meu camarada lá da festa. Sim, ela estava com outro. 

Encostei a pick-up, desliguei os faróis, apaguei o charuto. Fiquei olhando pra ver no que ia dar e não precisou de muito tempo até ver o necessário. A guria estava ficando com um camaradinha que tinha um grupo de motos Sport aqui na cidade. 

Embora eu soubesse que o barbudo (aquele que roçou a barba nela lá na festa)  era um filho da puta pelas suas macaquices que ele já tinha feito durante muito tempo, o rato ali não era ele, era a garota.

Liguei pra dois caras do clube e avisei pra eles chegarem onde eu estava e trazer além do deles, o meu bastão também! Aquele que tinha arame farpado em volta da ponta.

A Festa dentro da lanchonete rolava solta e aqui fora agente refazia a lataria das Rayabusas e R1’s dos otários lá dentro. Foi quando um apareceu pra atender o celular, viu tudo e voltou correndo lá pra dentro. Não demorou muito até os “jaspions” aparecerem ali fora. Mas o cara que voltou não tinha avisado que agente tava com os bastões... mas aí já era tarde. Ninguém levou nada na cara dessa vez. E talvez nem no corpo (por causa da Armadura japonesa). Mas sobre hematomas... eu já não posso falar nada.  Hehehe

A garota assustada quando me viu começou a gritar e então eu fiz sinal de silêncio pra ela e cheguei perto dela e disse: Entra no carro agora! 

Liguei a pick-up e disse pros caras. Daqui pra frente eu tomo conta. E fui embora...

Peguei o bastão de base Ball e encostei perto do pescoço dela enquanto dirigia com a outra mão. E disse: 

- Cê não vai querer que isso te encoste né?
- Pra onde você tá me levando?

Fiquei em silêncio. É claro que ela reconheceu o bairro, mas não quis dizer nada, por alguma justificativa.

Cheguei na porta da casa do camarada, arranquei a garota de dentro da pick-up e arrastei ela pela jaqueta até o jardim da casa dele.

Gritei o nome dele até a luz acender no andar de cima e ele aparecer sem camisa.

- Ta aqui ó! Cê perdeu essa merda lá no “inferninho”.
Ao que ele respondeu gritando Tb – com tom de desdém:
- Só que essa “merda aí” não é minha mulher mais! Terminamos ontem!

Era claro que o clube falara muito mais alto, e depois eu descobri que ele tinha terminado porque na hora que a briga estava rolando alguém fotografou e a foto foi parar no diário local do evento. E adivinha só: A foto era bem na hora do soco que eu tomei... No plano de fundo estava lá, a garota dele (ou melhor, Ex Garota dele)  com o pescoço debaixo da barba do Rato do nosso clube.

Então deixei a mulher lá... com os braços cruzados no meio do frio, entrei na pick-up e fui embora. Pelo retrovisor vi a garota se virar para frente da janela dele, e a janela dele se fechar, e a luz se apagar.

A semana passou rápido e então ele veio se desculpar sobre como agiu no evento, e me agradecer, que mesmo eu sem saber se eles estavam juntos ou não, e mesmo com problemas entre nós, o que valeu acima de tudo foi a irmandade.

E quanto ao rato? Você deve estar se perguntando... bem, levando em consideração de que ele é homem também e tem as mesmas tentações que nós, eu até o adsorveria. Mas não posso negar que a hora dele chegou bem rápido. E não foi nem pela minha mão, nem pela mão de ninguém. Foi pela mão do tempo... mas isso já é uma outra história.

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