Ha um tempo atrás quando quando eu era bem inexperiênte no quesito MOTOCICLISMO e organizei um ideal pessoal para um motoclube, resolvi fazer meu próprio escudo e sair por aí. Não tinha ideia (ou pretensão) de adquirir uma "tripulação" ou mesmo ampliar para outros membros.
Estava chateado com o que se tornou (ou que sempre foi) a liderança e alguns membros do antigo motoclube ao qual pertenci (mas isso ficará para uma outra história). O fato é que uma garota me chamou para acertar as contas de um antigo relacionamento meu que por um motivo sem respostas claras foi terminado; Como ela morava muito longe não havia possibilidades de um encontro cara a cara por demandar gastos, mas logo adiante estava uma oportunidade interessante: A família dela passaria o natal numa cidade vizinha e eu tinha como colocar os pingos nos "is".
Chequei só no olho minha moto de baixo em cima. coloquei minha calça, bota, luvas, jaqueta (como sempre fiz) e o colete novo por cima da jaqueta. Coloquei também minha mochila nas costas com um livro que estava devendo entrega-la, enchi o tanque e peguei a estrada. (isso eram umas 17:30)
Quilômetros a diante eu percebi que o tempo começou a fechar e por isso resolvi no abrigo de uma churrascaria na beira da estrada, para passar minha mochila para dentro da jaqueta. assim ela ficava justa em mim e ainda por cima não molharia o livro.
Desci, troquei todas as coisas e montei na moto. na época ela ainda não estava com a bateira arriada e portanto bati o "start" e a moto ligou. passei a primeira e soltei a embreagem levemente... Um barulho triste e estrondoso aconteceu dentro do motor, como se eu estivesse chacoalhando um punhado de colheres dentro de uma caneca de alumínio de colocar água para o café.
Desci da moto novamente e tentei entender logo ali em cima da moto o que estava acontecendo e sem muito entendimento retornei a churrascaria e perguntei se eu pudesse ligar para minha casa para tentar resolver isso com o meu pai. mas as ligações não completavam. quando um dos homens que estavam ali na churrascaria disse: sua corrente apenas saiu! e eu acostumado apenas com bicicleta, coloquei a corrente na coroa da moto, empurrei-a e "pronto"! lá estava a corrente colocada. eu sabia que ela estava muito bamba, mas como eu não sabia como esticá-la, resolvi apenas "andar devagar" até chegar no destino.
Alguns quilômetros adiante resolvi parar numa oficina (eu já estava começando a tomar chuva e o tempo fechava ainda mais). o mecânico pacientemente remendava a roda de um caminhão e com muito desdem disse que se eu esperasse uns 40 minutos ele veria se dava pra fazer algo para mim. Indignado por não saber resolver o problema sozinho e com o desdem do mecânico resolvi seguir viagem e subitamente fui atingido pela chuva.
As gotas me acertavam como flechas na altura do pescoço e minha viseira já não me permita ver muita coisa, quando de repente um oásis surge... Um posto de gasolina com uma plataforma bem grande (em forma de abrigo) pronto para me acolher até a pesada chuva passar. Não pensei duas vezes: Dei a seta para direita e desci o degrau de asfalto para um espaço de terra e depois percebi que havia logo adiante uma entrada "oficial" de paralelepípedos até as bombas de gasolina. parei a moto encostei as costas no sissibar, cruzei os braços e por lá fiquei.
A chuva espancou o posto como um bêbado faz a um cachorro vira-latas... Faltou luz 4 vezes por uns 30 minutos cada, com um intervalo de 10 minutos entre uma queda e outra. sem muita paciência e já andando de um lado para o outro resolvi montar na moto e seguir caminho... mas não estava para mim aquele dia...
Ao sentar na moto percebi que o pneu traseiro estava completamente vazio e sem muita esperança eu resolvi procurar o borracheiro do posto.
O cara demorou uns 20 minutos (10 minutos do intervalo entre a 3 e quarta queda de luz e os 10 minutos de apagão da 4ª queda de luz)... mas em fim chegou. como estava somente escuro, pude perceber apenas duas coisas 1ª a silhueta era baixa e o mecânico era negro. não que essas características fizessem diferença, mas foram as duas primeiras características (das três) que eu pude perceber.
Falei que minha moto estava com o pneu furado e que precisava remendá-lo além de esticar a corrente. prontamente ele me fez sinal sobre a luz da tela do meu celular, de que ele era mudo e surdo e não estava entendendo o que eu queria... Pronto. perdido na puta que o pariu, de noite, no escuro, com o pneu furado, com a corrente solta e o mecânico era mudo. o que mais me falta??? (a maldita pergunta tinha sido feita).
Expliquei com gestos e mostrando o pneu o que eu queria que ele fizesse e então ele entendeu... pegou suas chaves de boca e tentou sem sucesso algum retirar a porca de minha moto (que por sinal era exatos "um" número e menos que o modelo padrão de motocicleta). Em seguida mexeu na carenagem lateral de minha moto sinalizando para ver se eu poderia pegar as ferramentas oficiais da moto que ficavam numa bolsinha debaixo da bateria... exatamente como eu escrevi: QUE FICAVAM... porque o inteligente que vos escreve neste momento havia deixado o mesmo kit em casa durante a ultima lavagem da moto. e agora estava completamente ferrado.
Sem muitas escolhas cancelei todo aquele silencioso serviço e pedi apenas para que ele enchesse o pneu, na esperança daquilo ser apenas um esvaziamento repentino (pensamento positivo esse! né?) e então segui viagem.
Andei bons quilômetros até que o pneu começasse a deslisar sobre o asfalto molhado e por fim num rebolado muito forte fui obrigado a encostar a motocicleta que de uma forma muito natural morreu. ela parecia cansada em relação à viagem, como se aquilo tivesse vida. em fim parei. de sorte que parei exatamente na encruzilhada para a entrada de uma nova cidade e então pedi para que os donos da casa (que ainda estavam acordados) pudessem receber minha moto lá, pois eu precisava entrar em contato com um guincho (no caso, meus pais) para poder busca-la e só conseguiria fazer isso num posto policial que eu sabia que tinha logo a frente.
Os donos da casa me informaram que o posto estava a exatos 1 quilômetro e que eu poderia deixar minha moto lá sim, mas que não passasse de um dia. concordei e no susto até deixei a chave na ignição...
E então resolvi caminhar na beira da estrada....
A chuva tinha se transformado numa pequena garoa e o peso do couro e da mochila já não fazia diferença. com um capacete na mão e andando do lado direito da estrada eu me pus a caminhar até o posto.
Eu poderia descrever como foi um símbolo de salvação ver aquele posto (justamente como um farol em alto mar), mas de fato devo descrever o que foi caminhar aquele exato 1 quilometro pra mim.
Em minha primeira viagem com o novo colete pude perceber de que a necessidade de estar em comboio (ou matilha, ou família, ou bando... como preferir) é tão importante como necessário. Segundo, que por mais que você tente compreender que naquele momento era apenas a noite (no caso a ausência de sol) e todo movimento no capim com o seu som se torna 4 vezes maior e mais rápido, pude perceber que se eu precisasse passar para o outro lado da cerca da propriedade próxima eu não teria medo algum. percebi também que embora estivesse a pé, estava em casa (ou no termo técnico em latin: In Habitat) e buscar um abrigo , pedir um reforço ou consertar uma moto era apenas uma questão de contratempo ou aquisição de experiência mesmo. Sem mais resolvi viver aquele momento com muita tranquilidade. ninguém passou por mim e tão pouco haviam dúvidas sobre o que viria após as curvas. não estava preocupado com isso. e então caminhei livre.
Quando cheguei ao posto o guarda de plantão estava resolvendo o problema no carro de dois tontos que só faziam trapalhadas com o capô aberto. disse o porque eu estava ali e o consegui fazer algumas ligações no telefone público que ainda funcionara. o guarda viu que eu estava muito molhado e com frio e me ofereceu um copo de café bem cheio e quente. agradeci e me sentei na garagem do posto. arranquei a jaqueta, abri a mochila e pus me a ler o livro que eu estava para entregar. não demorou muito até que um amigo de meu pai viesse me buscar e mesmo sem completar "a missão" naquele dia, eu já poderia voltar para casa (assim como o fiz) com muitas lições aprendidas, experiencias adquiridas e maturidade digamos assim... "ajustada".

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