domingo, 15 de junho de 2014 0 comentários

Iniciação

Há sempre coisas boas na minha cabeça quando chove. Uma delas, é que a chuva é passageira, não importa a força que caia. Quando esperamos num posto é porque é quase que impossível enxergar um palmo diate do nariz e aproveitamos pra completar o tanque, tomar uma bebida quente ou mesmo acertar algumas coisas nas motos. É nesta hora que eu fico olhando para o lado de fora... Na estrada... Com pessoas com pressa, sem pressa, acelerando só porque acha que a chuva acabou e a estrada está pronta para uns quilômetros por hora a mais... Doce ilusão.

Mas também, por um breve momento (daqueles que você está olhando para um lugar e tudo fica embaçado e você apenas perde o foco) eu me lembro dos dias em que estava com meu velho... Tempos antes dele surtar e jogar tudo pro alto partindo em direção de outras estradas maiores. Tempos ao qual ele sempre me dizia pra não andar exatamente com quem eu ando hoje, pra não fazer exatamente o que eu faço hoje, para ser um homem sério, bem sucedido (que para ele significava ganhar dinheiro, muito dinheiro), pra ser uma pessoa em casa, uma pessoa no trabalho e uma pessoa na rua... Em fim, que bom que ele se foi. Hoje, a única coisa que sobrou dele, foi a antiga "quinhentas" toda feita em ferro, mais pesada do que duas motos "quinhentas" de hoje. Mas nada muito mais ou menos perecível do que suas próprias palavas. Foi através dele que eu tive as maiores lições de vida (só que ao contrário). Foi na tentativa de não ser ele que eu consegui ser o que sou. Mesmo que na verdade não importe muito, ou que eu venha a ter o mesmo fim que ele e todo o resto da humanidade.

Mas também pensando no que ele sempre falou pra mim, serviu não só de antídoto para o seu comportamento como também pra aprender a enxergar pessoas como ele. Sabe? pessoas que são uma coisa em cada lugar e isso com certeza complica as coisas quando se encontra com essas pessoas em mais de um lugar. Elas não sabem reagir com um padrão só e por isso travam, cometem deslises... alguns bem desastrosos.

Foi numa dessas tentativas de ser sempre a mesma pessoa, a vida toda, que eles me encontraram. Exatamente na saída de uma igreja (como comentei num outro relato) que eles me viram ser o mesmo homem, no bar, no cemitério e também na igreja. Não demorou muito para que eles viessem até mim, puxassem papo, pagassem uma cerveja e quando eu me dei por conta estávamos socando um outro grupo por conta de um freezer cheio das mesmas cervejas quentes de sempre. Na semana seguinte eles me visitaram, sem querer entrar em casa, apenas paravam na porta. Sua mãe olhava pela persiana e se deixava ser percebida como quem "tomava conta do seu marido". O pessoal não ligava, acendia um cigarro e la só me via balançar a cabeça positivamente para eles e dar uma rápida corrida no gramado até a garagem. Em instantes já estava eu na antiga quinhentas, barulhenta, atrás dos caras.

Tempos depois já não precisavam vir aqui me chamar, eu sentia a hora de pegar a moto e ir até eles. Sua mãe nunca disse que eu estava estranho ou coisas do gênero (aquelas que sua mãe falaria pra você na adolescência), mas eu sabia que não era o mesmo "eu". eu estava mas livre, despojado e completamente adaptável a qualquer ambiente. Andar com eles me fez evoluir.

Sempre achei que os caras tinham uma forma de se portar, de se vestir completamente diferente dos outros, e era isso que me faltava;

Nunca preocupei com minhas roupas, bons modos tradicionais (embora sempre considerei a palavra respeito como algo perdido ha muito tempo e digno de se buscar/encontrar), tão pouco me adequei aos padrões de vida normais. Mas sabia que havia algo a mais nisso.

Bom, o tempo passou, uma tatuagem aqui (sobre algo que eu nem sei de tão doido que estava), um machucado ali (daqueles que a gente se lembra depois da ressaca e de ver a moto toda empenada). A barba e os cabelos maiores, alguns anéis (que marcaram os eventos/viagens em que eu estava) até que um dia me chamaram lá "casa" deles. disseram que tinham "algo" pra mim.

Cheguei lá e eles me mandaram sentar à mesa, tiraram de um saco de plástico preto um colete, nas costas, o mesmo símbolo de todos que ali estavam sentados. Me reconheceram.

Noite de festa,madrugada a dentro, cerveja, drogas, mulheres mas eu tentei me manter são e limpo. voltei pra casa, ansioso para me ver. Precisava ver apenas um detalhe.

Guardei a moto na garagem. Casa toda desligada. sua mãe já estava dormindo. Passei pelo quarto, fui no como dos fundos, onde ficavam as tralhas da sua avó. Fui onde o espelho era grande. Eu queria me ver. na minha cabeça eu era apenas um cara normal andando com "aquele grupo". Pensava no que eu devia colocar a mais para me tornar "um deles". 

Liguei a luz, me vi por inteiro no espelho. tirei o colete por uns instantes, não consegui imaginar o que colocar. coloquei o colete novamente. quando me percebi,

Eu já estava completo. eu já era um deles! sem o colete, e agora com o colete.

Conhece-los foi apenas a transição do meu EU que sempre andou só e perdido para agora andar com iguais, irmãos e em família.

"A diferença entre a sua aparência e sua vida num MC tem que se limitar apenas ao colete! se você precisa colocar mais coisas além do colete. você tá se fantasiando. Em resumo, pode colocar coisas "a mais", Mas, transparência tem muito a ver com humildade, respeito e dizer estritamente sobre o que é você de verdade." - RWPP



sábado, 18 de janeiro de 2014 0 comentários

O Reverendo

Do tempo em que eu vivi com a sua mãe, foram anos de muita loucura. Mas com certeza não era a loucura que eu sempre quis que ela vivesse comigo. Na verdade era a loucura de ter casado com uma mulher que não gostava de motos, nem do que eu usava, nem do que eu vestia, nem do que eu acreditava. Mas eu não vou denegrir a imagem da mulher que me deu uma pessoa tão especial quanto você, não é?

pois bem.

Mas ainda sobre as loucuras dessa mulher, tinha uma em peculiar que sempre me deixava muito puto. que era a maldita insistência dela em eu visitar (para quem sabe assim um dia, frequentar) a igreja em que ela ia religiosamente todo o domingo.

então era assim:

Eu acordava cedo, abria uma cerveja, ligava o som baixo lá na garagem e ia mexer na moto. Mais ou menos uma hora depois que eu acordei, ela acordava, tomava um banho, colocava aqueles vestidos floridos que você sabe de qual eu estou falando, preparava o próprio café, pegava sua bíblia e ia até a garagem para me avisar que estava indo à igreja e de quebra me convidar.

É claro que eu sempre disse não, e um não abarrotado de motivos pessoais, lógicos, ideológicos e principalmente sociais.
ela apenas fazia uma cara triste, e eu fingia que não estava vendo por entre as aletas do motor. 

Então se quisesse ter pelo menos meio dia feliz, era melhor que a moto estivesse funcionando e abastecida, pois eu teria que pegar a estrada e fazer um "rango" na beira da rodovia mesmo. pois se eu ficasse para o almoço sua velha faria aquele macarrão xoxo, empanzinado de murmúrios contra mim,  que de fato deixaram o macarrão ainda mais azedo do que estava. 

e assim seguiu a vida de mais de uma década e que ainda bem que não estamos juntos.

Mas certo dia, resolvi dar um susto na velha.

acordei cedo, tomei um banho e desci até a garagem. lá me assentei no sofá estourado que fica perto das chaves em "L" e fiquei esperando a cara da sua mãe.

Quando ela apareceu na garagem, com aquele vestido florido e me viu de calça social, sapatos, cinto, camisa de botões (fechados). tinha certeza que a velha iria dar um piripaque. e descrente ainda do que viu, me perguntou:

- você vai sair?
- Vou
- Vai aonde?
- Na Igreja.
- Sério?
- uhum...

com um amável e discreto sorriso no rosto, ela deu meia volta em seus calcanhares e pegou do lado da porta o chaveiro da caminhonete (porque ela não sabia dirigir e sempre pegou carona com algum outro membro da igreja) e trouxe-a para mim.

Percorremos as quadras em silêncio. eu sabia que a velha estava bastante empolgada (e ao mesmo tempo com medo e receio) mas escolhera não falar nada para não me "espantar".

chegamos na igreja, ela desceu do caminhonete e eu fui estaciona-la. Ela achou que era apenas um truque para que eu fosse embora, mas eu não ia fazer isso. mesmo para uma coisa que eu não gosto e não queria também tinha que cumprir a minha palavra.

Entramos, sentamos bem no fundo, próximo a porta. Talvez ela escolheu este lugar para que eu não ficasse mais acanhado, mas eu penso que é um ponto bom para ir fumar lá fora.

os "irmãos" começaram o culto pedindo para Deus falar com eles, e como essa parte era "de graça" não levei muito a sério e ali sentado e olhando pra cima (ora para baixo) disse, então pode falar comigo também.

não meu filho... isso não é um testemunho de conversão! (risos)

o culto foi longo demais da conta pra mim (deve ser porque quando se está fazendo algo que não se gosta...). mas enquanto O Reverendo emitia um discurso mais difícil de compreender as letrinhas pequenas das bulas de remédio, eu ficava ali observando as pessoas. e tinha MUITA gente que eu conhecia, muito vigarista, patife, salafrário, filho da puta, tanto quanto eu e ali estava... pagando de bonzinho, fazendo o serviço de Deus do jeito que tinha que ser. A minha vontade era sair por cima dos bancos e socar a cara do filho da puta que sempre ficava falando sobre bla blá blá conjugal mas lá fora não tirava o olho do rabo da vizinha.

e mais um monte de outras hipocrisias.

A reunião acabou e minha mulher se levantou primeiro. em seguida fomos ao carro, ela não disse uma palavra, mas o sorriso dela já dizia tudo. ao chegar em casa, estacionei a caminhonete na porta de casa e ela me disse um - Muito obrigado por me acompanhar - e fechou a porta e caminhou mais rápido para a porta. a cena parecia que a gente ainda era namorado e ela estava parando na casa dela. 

bom, fui para a garagem para adiantar o serviço na moto, peguei o macacão, vesti por cima da roupa e fui resolver os meus problemas.  enquanto apertava uma porca aqui, lubrificava uma corrente ali. percebei que embora parecesse impossível havia aprendido algo na tal "Casa" de Deus. 

Aprendi que os mesmos comportamentos que eu vi se assemelham com um Moto Clube. Que há muitos que falam que andam muito, mas esquivam-se de fazer uma ou outra viagem; que muitos utilizam o colete apenas quando vão à sede (e você pode comparar o colete com a bíblia agora). que muita gente conta vantagem lá dentro e se porta de uma forma que na verdade, lá fora são outras coisas. 

então, teria que deixar claro que é fácil ser membro de um Moto-clube só dentro da sede, ou somente perto dos outro membros do clube. agora quero ver mostrar serviço lá! 

todo santo domingo no nosso templo, que é a estrada.
através do nosso santo, que é a nossa moto.
seguindo fiel a nossa religião, que é a viagem!

Terminei os meus trabalhos com a moto e sua mãe me apareceu na porta, com um avental por cima do vestido florido e disse: o almoço está pronto. você vem comer.

e por fim tinha esquecido o quão é diferente comer a comida de alguém que está de bom humor!
 
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