quarta-feira, 2 de maio de 2012

Ultrapassar

Falamos a tanto tempo de "coisas da garagem" que as vezes nos esquecemos que a real emoção está na estrada. E não é uma ou outra vez em que estamos na estrada que nos sentimos bem, é SEMPRE! Sentir-se mal ou desconsertado é um desvio de curso que em geral até a própria estrada conserta (se não na ida, com certeza na volta). Mas não há uma das coisas que me coloca para pensar mais do que uma ultrapassagem.

Eu poderia até retirar aqui os valores de kilômetros por hora, torque ou mesmo a cilindrada de qualquer moto, mas o que fica na minha cabeça quando eu ultrapasso um carro é muito mais do que apenas um golpe de vista, uma rajada de vento de um caminhão que acaba de passar ou mesmo as condições da estrada. o que fica na minha cabeça é a vida de cada um que eu ultrapassei, transcendi, deixei para trás.

Sabe filho, quando eu era pequeno, me assentava na janela do sótão do celeiro do meu pai e ficava vendo a movimentação das pessoas ali por perto. Muita gente vinha comprar cereal do rancho de meu velho e por ali eu ficava... balançando as perninhas e brincando com uns fiapos dos fenos que se soltavam e ficava imaginando a história de cada um que vinha ali fechar negócio com ele. Sabe? Quem era a mulher daquele homem barbudo? Quantos filhos já teve esse outro velho? E essa mulher magra aí?! será que passa fome de verdade? e por aí eu ia... Mas o tempo passou e eu cresci e vi todas as coisas mais importantes que eu tinha naquela época escorregarem por entre os meus dedos! 

Olha filho, o tempo passa rápido demais! Mais rápido do que os números do odômetro.

E então eu cresci.

Algumas coisas, a poeira da idade encardiu ao ponto de eu nunca mais enxerga-las. Mas, há outras coisas que com certeza fazem muita diferença para mim até hoje. como é o caso de imaginar a história da vida de cada um. A clareza da estrada te permite esse tipo de reflexão sempre!

Quando eu era criança eu tinha muito que imaginar, hoje, depois de tanto tempo, basta olhar para o rosto de uma pessoa e já há muita coisa da vida dela ali escrito e não há nada mais claro de se ler do que cada rosto dentro de um carro de família quando se ultrapassa.

É claro que exceções existem e os papéis podem ser variados,  mas não tem nada mais fantástico do que ultrapassar um carro de família bem depois do almoço. E a cara de cada um é mais diferente da outra. por exemplo:

O filho mais novo do casal, pendurado no vidro da janela assiste um espetáculo de liberdade sobre duas rodas, e o brilho nos olhos não mentem que há uma chama que ainda existe em raros espíritos contrários a esse sistema idiota chamado Mundo. 

A filha mais velha, recostada para trás com o fone de ouvido, levanta-se repentinamente, mas ao perceber o que se trata, volta novamente a sua posição comoda, de não fazer nada e deixar o curso desse mundo. não a julgo, esse tipo de pessoa precisa existir para que eu diga aos meus filhos: Olha! nunca sejam como aquela garota lá! (...) 

O pai, como sempre dirigindo, com uma cara fechada (mas não de bravo), mas sim de frustrado com as contas, com a família ou sei lá mais o que, pragueja no seu próprio pensamento o quão marginal é o delinquente que está o ultrapassando agora. E por último e não menos importante, a mãe da família! 

Tenho certeza que se essa coroa tivesse umas Tattoo e um jeans rasgado ainda daria muito caldo. Mas lá está mãe de dois filhos, com os braços cruzados e olhando para a estrada... num pequeno, quase imperceptível instante ela olha no retrovisor do seu lado e em seguida acompanha minha ultrapassagem. O marido não consegue perceber a expressão de sua esposa pois está ranzinza o suficiente com suas rabugices. mas neste mesmo instante, aquela mulher imagina se sua vida tivesse tomado outros rumos e naquela garupa não estivesse colchonete ou alforges, mas sim, Ela. 

E com uma tentativa de fechada do motorista eu o ultrapasso não somente o carro, mas os conceitos fechados deste mundo velho demais para se renovar. deixando assim, aspirações de uns, o comodismo de outros, as ranzinzices de outros e o arrependimento de outros (e que ainda têm tempo enquanto respiram).


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