Sabe filho, é meio que difícil voltar de um funeral como esses. Afinal de contas não é um funeral comum. É um funeral de um motociclista, de um verdadeiro motociclista! De um irmão de estrada que fatalmente por um descuido dele mesmo, ou um problema na moto, ou de outro (na sua direção) não permitiu que ele estivesse na nossa reunião e nem em nenhuma mais.
E isso talvez seja triste.
[retirando-se do local do enterro e cumprimentando os outros 'irmãos' apenas com o aceno da cabeça, com o colete fechado e as mãos nos bolsos].
Te estranha o fato de eu dizer o "talvez"? é... eu sei que estranha. Mas da última vez que estive num encontro de motociclistas perto da antiga cidade onde eu morava quando jovem, aprendi uma coisa que pode ser o suficiente para acalmar uma dúvida do coração.
Assentava-se eu então a uns bons anos atrás com alguns conhecidos meus e comentávamos sobre os outros motociclistas que estavam para chegar no evento e pouco a pouco fomos nos lembrando dos nomes mais conhecidos do público e que consequentemente se destacavam em nossa memória. Até que alguém citou o nome de um motociclista amigo nosso que falecera a dois meses do evento. Então o anfitrião do evento que estava na mesa e nos dava as coordenadas de cada um que estávamos 'listando' coçou a barba e disse meio que desconsertado ou mesmo evitando o assunto: ah! esse aí agora está andando em outras estradas... estradas muito melhores do que a nossa. Todos se entre olharam... Olharam para baixo... Uns deram mais um gole na cerveja e outros pigarrearam... e a conversa (pelo menos essa conversa) terminou ali.
É claro que a conversa acabou por aí, mas não o pensamento e a memória. Intrigado, fui até o pátio do evento, deitei na grama, pus o chapéu de lado e acendi um charuto. Ali deitado mesmo observava a fumaça que saia do charuto e se confundia com as nuvens e terminantemente me recordava do camarada que marcou a minha história no motociclismo, mas que nos deixou.
Ele era já velho fisicamente, mas seu espírito era de dar inveja em muitos! eu tinha uma foto com ele pregada lá na garagem, pode conferir depois. atrás dela está escrito: META! porque com certeza eu queria ser como ele quando crescesse.
Mas ali mesmo deitado na grama, enquanto ouvia a passagem do som e alguns motoclubes recém chegados colocavam suas bandeiras num imenso varal, me peguei pensando sobre o que há do outro lado. Sobre o que tantos caminhos (religiões) e fé levaram a homens a acreditar, e ainda mais, qual é o motivo de desespero para uns e descanso para outros? uma vez que ninguém sabe ao certo o que é o outro lado.
Ainda que algum desses caminhos esteja correto (e eu não duvido disso) há alguns que nos propiciam pelo menos um conforto momentâneo. E são nesses que sem lógica ou fundamento nos agarramos periodicamente para nos confortar nas noites sem nossos finados amigos.
Mas uma história em especial me levou a Re-pensar o 'outro lado'.
Há uma certa tradição nórdica que diz que quando o guerreiro morre com honra (ou seja na batalha), sua alma é levada separadamente do corpo por Valkirias (uma espécie de 'anjas' ruivas ou loiras) para o Valhalla, o céu dos vikings (lê-se Valrala) e lá ele receberia as honras por seus feitos aqui.
Em Valhalla não havia muita coisa a se fazer, na verdade haviam apenas 4 coisas: Caçada à Cavalos pela manhã, Combate armado pela tarde, e um grande Festim com os frutos da Caça da manhã, cerveja e muitas mulheres ... e "isso" era eternamente.
É como se diz num antigo texto que li:
"Lá as presas andam mais devagar, a carne é mais suculenta, a cerveja é mais forte, nos combates não há morte ou derramamento de sangue daqueles que amamos e as mulheres são todas muito, mas muito lindas!"
É claro que nosso amigo não está num céu como esses nunca, nem aqui, nem em Valhalla. Mas o que me impediria de preencher esse vazio (de onde ele está)? senão minha própria criatividade.
É por isso que acredito eu que os nossos irmãos de estrada que partiram dessa para melhor estão verdadeiramente NA MELHOR. Um lugar onde a moto nunca estrague, que a gasolina nunca acabe e que a estrada tenha no mínimo 5 mãos de cada lado e o asfalto seja como um 'tapete'. Nas paradas há sempre garçonetes lindas com os 'alforges' bem grandes e uma garupa de chamar a atenção de todos. Lá elas servem a cerveja mais gelada, e dão bola para os nossos irmãos! O caixa não recebe nem dinheiro e nem cartão, pois anota tudo para todos sempre sem nunca cobrar. Logo mais adiante... para ser sincero... bem longe (para ter que andar MUITO de moto) tem um motofest maravilhoso com uma recepção calorosa e agradável feita pelos outros amigos nossos que já se foram. Enquanto Mais Garotas recepcionam as motos lavadas ali mesmo. Antes de anoitecer todos os Grandes nomes do Rock veem trocar idéia como se fosse um qualquer perto deles, e lhes pedem a benção para tocar muito bem, ganham adesivos e botons e os pregam na bateria e guitarra como um símbolo de reconhecimento e amizade. Por lá a essas horas a noite parece que nunca acaba. Pelo menos enquanto há cerveja e rock'n roll tocando. Depois de um tempo (não um dia, ou um fim de semana, é um tempo mesmo). Todos se retiram, mas não para sua casa, pois a sua casa agora é ali, na estrada. E então partem para festejar a vida em outros lugares,"em outras estradas , estradas muito melhores que a nossa".
e eu acho que é isso.

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