Estamos vivendo num mundo ao qual a mudança está tão potente que não dá pra afirmar como será a economia ou a política ou o que vai passar na tv ou todas estas "desnecessidades" existentes para quem anda de moto e ainda quer uma vida simples. Meu pai me ensinou a aguentar 3 trancos na vida: Um porre antes de um dia de trabalho, dois coices coice de espingarda com uma mão só e três murros bem dados na cara. Mas não me disse que uma garota poderia ser a razão de um (ou mais) motivo destes 3 trancos. Sobre Elas, eu não vou falar hoje. Até porque tanto o mundo quanto Elas mudam (ou não) rápido demais.
Quando tomava um café num desses sábados em que você já está vestido para pegar a estrada e o tempo começa a fechar mas você nem serra os olhos (como o Clint cerraria) porque já tomou tanta chuva nessa vida que é só um dia qualquer... passou no rádio velho que estava na prateleira de graxa que há uma expectativa de que a gasolina acabe em 30 anos... na época eu nem tinha um fio grisalho... Ali escorado com o ombro no umbral eu adicionei uma nota mental à notícia que as motos americanas já custavam os dois rins e agora a gasolina agora vai começar a ficar mais e mais caro, até que seja um bem de poucos, dos bacanas... e aí usar um carro (econômico) vai ser um caso de extrema necessidade e apenas nos fins de semana... bebi o café... ele estava menos amargo que as notícias.
Em seguida o rádio disse (quase como que uma venda casada) que algumas marcas (dentre elas a mais famosa) já havia iniciado os protótipos elétricos... ELÉTRICOS! - cuspi o café todo na varanda - e então minha mente se lembrou da letra de Born to be wild onde pela primeira vez utilizaram a expressão "heavy metal thunder". Expressão que serviu para um gênero de rock até hoje e também para o SOM dos motores da Harley Davidson... motores cujo som são patenteados! agora seriam substituídos por silenciosas turbinas... imagine um trem.... com 8 ou 10 caras de moto... e aquele silêncio insuportável... O "Vrrrruuuummm" perderia para sempre o seu "r" deixando espaço para um monossilábico "vuuuuuuum" tsk... eu devo estar pensando besteira demais... dissipei os pensamentos como alguém que dispersa pequenas nuvens em volta da cabeça, peguei o capacete e segui para me encontrar com outras pessoas.
O ponto de encontro era um bar simples na beira da estrada tinha gente de tudo quanto é clube e seguimento. até que apareceu um pequeno clube que eu já tinha ouvido falar e seus feitos eram memoráveis. claro que neste meio nem todos feitos memoráveis são justos ou certos, mas de uma maneira particular os caras "faziam por onde para manter a tradição..." exceto pelo fato das Bigtrails...
Vestidos como era a tradição, conversando e se comportando como era a tradição, bebendo como era a tradição aqueles caras me instigaram desde quando chegaram montados naqueles "camelos" daquela altura... conversamos bem até que encontrei uma brecha para perguntar sem ser desrespeitoso sobre as grandonas paradas lado a lado lá perto do posto. ao que me respondeu...
- cara... os tempos estão mudando, não se dá mais "baile na lei" com arrancadas nas auto estradas... carros estão mais potentes mas ainda não são todos que conseguem passar num ou em outro matagal, e outra... nossa cabana (se referia a sede) garante a privacidade suficiente mesmo em dias de chuva...
O papo se estendeu, mas foi nessa primeira conversa que eu tive que aceitar que o futuro não será um lugar de tradições físicas, os tanques de gota, os motores barulhentos, a gasolina... talvez até as springers virarão lendas numa parede de sede de clube... a tradição não estão nestas coisas, mas como você as ensina e as passa.... customizaremos estas turbinas debaixo das motos até elas urrarem, haverão motos custom bigtrail, gasolina? biodiesel? Bateria recarregável? não fazia a mínima ideia do que seria o futuro.. mas os 3 trancos continuarão sendo ensinados de irmão pra irmão, de pai pra filho, de tio para sobrinho...
O papo acabou e os caras pegaram a estrada convencional mais cedo. logo mais tarde cheguei em casa e guardei a moto, na prateleira de graxa além do rádio havia um gancho com um galão com gasolina pela metade. olhei para aquela coisa como se estivesse me despedindo do ultimo cantil antes de adentrar o Saara.
e mesmo com tudo mudando e mudando tanto, ainda dá pra tentar manter a tradição.
pelo menos
por hora.

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