Durante muito tempo da minha infância fui advertido pelos meus pais dentro daquela gaiola que eles chamam de carro, para tomar muito cuidado com caminhoneiros. Eles sempre diziam que eles não tem noção de espaço, não deixam os outros passarem ou mesmo não tem o mínimo respeito pelos outros automóveis. Completavam sempre esses alertas com a ideia de que "eles estão sempre na estrada e acham que são donos delas". Exatamente como os táxis dentro de uma cidade (mas aí já é outra história).
Bom, mantive esse consenso familiar comigo durante anos, e conforme eles se passavam eu progredia em cilindradas das motos. Claro que nunca passando muito perto de um caminhão. "aquelas coisas balançam muito o vento" é o que se ouve em um ou outro posto sobre o vácuo que eles criam ao correrem. Mas um belo dia chegou a minha vez de testar tudo isso.
Na verdade, existe uma época da vida em que tudo que te falaram que era ruim, não compensava e você não viu exemplos destas consequências, vão te levar a executar as mesmas cosias. Uma delas era desafiar um caminhão, daqueles grandes! Porque quando se está na estrada não se desafia a pessoa dentro do veículo, o desafio transcende. toma grandes proporções.
Então lá estava eu fazendo um tiro de 500km numa sexta feira quando me deparei com um daqueles grandes! devia ser um bi-trem de baú fechado. daqueles que puxam todo o ar e ainda balançam a cabeça com lapadas de vento caso você esteja atrás. A verdade é que as primeiras duas horas de viagem fomos "conversando" (uma sequência de ultrapassagem hora respeitosa, outrora desrespeitosa que mantinha um contato visual via retrovisor). setas, freios, acenos são usados na estrada constantemente e torna uma conversa interessante quando o único barulho que tem são os ventos e os motores.
O caminhão se adiantou muito e alguns quilômetros adiante estava ele parado num posto fiscal. A "bola de carne" que dirigia o caminhão parecia cansado pela árdua jornada de trabalho e com um maço de notas fiscais apresentava justificativas para o policial que mandara encostar.
passei por eles.
O caminhoneiro fez mais um gesto com a cabeça e eu o cumprimentei de volta. o policial achou que era pra ele... coitado.
viagem adiante, é a minha vez de parar. Não que eu quisesse, ou que eu pudesse, mas quando a máquina é quem manda, é ela que decide arbitrariamente quando e onde parar. e foi na estrada debaixo do sol escaldante depois do almoço. numa "retona"... distante de uma longa subida que se via no horizonte.
O Problema era simples, Velas de ignição. sempre que as mesmas falham, um antigo mecânico me ensinou oque era só quebrar a louça delas que daria para chegar no local. daria mesmo se a única chave que eu não coloquei dentro da bolsa de ferramentas fosse a chave de vela.
Tentei simular com uma ou outra chave mas no fim eu sabia que eu não conseguiria, que a rosca da vela seria danificada ou mesmo do motor. e mesmo assim ainda tentava... já se passavam alguns minutos. não seria necessário nenhuma hora para que eu já estivesse completamente queimado do sol ou mesmo desidratado. os couros já estavam no chão e eu ali tentando resolver a tal bagaça que me impedia de chegar ao meu destino. quando de repente apontou na estrada o Caminhão. de longe parecia uma cena de mad max... ele lá, no meio do nada e a vasta poeira vindo atrás dele naquele sol.
Eu sabia que seria mais um comprimento do tipo: "nos vemos na próxima parada" ou em último caso um "coma poeira, seu monte de merda!" mas não... aquele dinossauro reduziu e parou bem no acostamento (já que eu estava fora da área do acostamento só por questão de segurança mesmo). fazendo uma sombra instantaneamente refrescante para mim. o caminhão ficou parado e ninguém desceu. é claro que eu também pensei no pior, coloquei a mão para a parte de trás da cinta. não havia ninguém olhando no retrovisor, por isso continuei achando estranho.
em seguida ouvi um som de muitos metais chacoalhando juntos, o cara deu a volta por tras do caminhão me surpreendendo duplamente, uma porque eu estava de frente para a parte da frente do caminhão, e outra porque ele estava com uma caixa de ferramentas muito grande.
aproximou-se de mim dando um bom fim de tarde e disse que talvez eu precisaria de algo ali dentro. a caixa de ferramentas era somente ferramentas de moto porque numa conversa depois descobri que o carregamento era de uma dessas concessionárias japonesas e tinha muita coisa.
definitivamente não foi uma conversa longa ou mesmo uma situação que cause uma lição de moral, não quis e nem quero saber do cara. só pude levar pra frente que nem tudo o que as pessoas falam é verdade como foi o caso dos meus pais na visão de vida que eles tinham.
até porque dias depois fui me tocar que o cara resolveu parar exatamente do lado onde eu estava apenas para fazer uma sombra para mim. De la pra cá não vi o caminhão (ou o caminhoneiro) como um grande problema da estrada, senão como um irmão maior. com todas as características que irmão tem... marrento, egocêntrico, "valentão" mas com a consciência que estamos todos na mesma família.
A estrada.

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