segunda-feira, 28 de maio de 2012 0 comentários

Couro duro

Todas as manhãs de sábado os Morrisons mandavam seus filhos de casa em casa vender alguma coisa. Em geral, os meninos dele evitavam passar aqui em casa, com certeza tinham medo de minha aparência. Mas quando vinham até aqui era a minha patroa que os atendia e com muita paciência acabava comprando as "coisas" que eles vendiam. Era sempre assim, ela comprava dos meninos, dava um tapinha na cabeça deles e olhava para o outro lado da rua a acenava para os pais que colocavam os filhos cedo no ramo dos negócios.

O tempo passou e eu não pude mais contar com a "patroa"; agora a cena funcionava da seguinte forma: eles tocavam a campainha na frente da casa; da garagem do lado saia eu em silêncio (em geral com uma ou duas chaves de boca nas mãos); os meninos se entre olhavam, olhavam pra mim; olhavam para os pais do outro lado da rua e eu voltava pra dentro da garagem.

Isso aconteceu durante muitos sábados, sábados suficientes para os meninos tornarem-se adolescentes. e nesse caso, eu já poderia ser chamado de "velho".

foi quando um sábado desses apenas um dos dois meninos apareceu na porta de minha garagem. Estranhei mesmo todo aquele comportamento, principalmente pelos fatos de ele estar sozinho e de vir direto aqui na garagem. Levantei de de baixo da moto, passei o anti-braço "limpo" no rosto coloquei as chaves de boca no bolso e limpei as mãos no lenço do bolso de trás:

- diga garoto!
- Olá Se-se-nhor... -o garoto respirou fundo e parou de gaguejar- eu estou aqui pra lhe vender este produto para couro...
- Não estou interessado...
- Mas a Esposa do senhor disse que o senhor sempre teve couro em sua garagem

Pensei comigo mesmo: qual é a do camarada?

- mas minha EX-ESPOSA não mora aqui faz muito tempo!
- sim senhor, mas eu sempre soube que o senhor tinha couro aqui porque quando tenho que ir nesta maldita rua vender essas porcarias que meu pai me manda, eu vejo o Senhor sair com sua moto com todo o couro possível, e eu tenho certeza de que sua ex-esposa devia cuidar muito bem de tudo isso...

O moleque tinha um raciocínio muito bom além de ser um bom observador. resolvi dar corda para o "enforcamento".

- é... ela fazia o que era o possível, mas não com esse couro. - fui até o fundo da garagem e peguei minha jaqueta e trouxe pra ele ver...

os olhos do guri brilhavam como se estivesse diante de algo muito valioso - embora fosse apenas a jaqueta de couro velha - e eu já tinha visto esse olhar antes... era exatamente como o meu quando vi essa jaqueta na vitrine... bem antes de eu ter minha moto.

O garoto dispersou o olhar um instante, e o raciocínio lhe chamou a atenção mais uma vez: 

- Então, como é que você mantem essa jaqueta tão velha com o couro mole depois de tanto tempo?
- Olhe o respeito moleque! 
- desculpe senhor...
- não há segredo em manter o couro mole, é necessário apenas Rodar sempre, usá-lo. Eu utilizo meus couros como um termômetro de estrada. quando ele começa a endurecer, significa que é hora de pegar a estrada. conheço pessoas que quando pegam seu velho couro do guarda roupas ele já está além de duro, mofado... o que é uma pena; Sempre que eu posso (isso é de uns  4 em 4 dias) eu pego a jaqueta, botas, calça e as luvas e "levo Pra passear"

- Mas como? nem sempre é frio o suficiente por essas bandas?

Então eu sorri e apontei pra moto...

- Aquilo ali mantêm qualquer clima frio, e transforma qualquer manhã no gelo mais cortante o possível.

os olhos do garoto se arregalaram quando ouviu minhas comparações. Mas seu sarcasmo era tão afiado quanto sua língua, pelo que me respondeu.


- Então com certeza, vai precisar de meu produto sim, porque mesmo mantendo o couro molinho como aparece aí, tá faltando um brilho nessa bota... e nesse banco da moto... e na luva....

- Já chega guri! quanto é isso aí?
- 2 e meio!
- Tudo isso?
- Não... meu pai me manda vender a dois, mas sabe como é né? o meio é pelo fazer o que é chato...

pensei novamente: putamerda... heheh eu posso estar diante de um próximo motociclista com certeza! o cara tem tudo contra o "sistema", além do sarcasmo e língua afiada e sabe tirar proveito disso...

-Fechado então... - dei o dinheiro pra ele.

o Garoto contou o dinheiro me agradeceu e antes de sair disse:

- Senhor, não deixe esse couro endurecer não!
- Pode deixar guri -se depender de mim ele não endurece tão cedo.
terça-feira, 8 de maio de 2012 0 comentários

A Patroa

Pega aquela foto que está lá em cima da escrivaninha pra mim garoto!... isso! Aquela que tá Você, sua mãe e eu em cima da moto.

Preciso pensar em um lugar novo pra colocar isso aqui na garagem mesmo. 

Era engraçado como sua mãe fazia questão de não bater fotos perto de minha moto. Mas sempre que você insistia, ela pegava o maior vestido florido (daqueles que a sua avó puritana deu) e fazia a pior cara. Bem, eu não ligava, mas não era a toa que toda foto aparecia você puxando os braços cruzados dela para baixo, e não se assuste! Isso foi à vida toda. 

Mas quer saber? Eu não reclamo disso não. Sua mãe, enquanto esteve comigo e mesmo depois de separada sempre fez um grande papel de “Patroa” de um motociclista. Ela não gostava, mas respeitava. Não apoiava, mas não me impedia de fazer o que eu nasci pra fazer. Não concordava com os tipos de pessoas que eu andava, mas nunca deixou de oferecer uma cerveja quando parávamos todos aqui na garagem antes de uma viagem. E por aí vai. Mas acima de tudo, de tudo mesmo, Ela Sabia o seu lugar. E não pense que eu tive que ensinar ou dar “alguns toques” como dizia você e seus colegas. Uma Patroa de verdade tem este senso Nato.

E esse assunto não está ligado com os serviços “de mulher” numa casa, está ligado com o clube.

Imagine que cada coisa deva ficar no seu devido lugar! Certo? Como essas chaves de boca aí na parede! Você não vai colocar uma chave 9/16 no espaço da 12/14! Ou vai? 

Então. Para um motociclista existem “virtudes” que devem ser distribuídas de forma correta para cada um de seus aspectos em sua vida. Isso não significa que um seja maior que outro. Mas há situações em que, se colocado na balança esses valores, algo PRECISA pesar mais. Então fica claro compreender que a dedicação fica para a sua moto, assim como a prudência fica para a estrada, seu amor fica para sua Patroa e sua honra fica para o clube.

Não peça para colocar coisas tão grandes como essas numa balança porque dependendo da situação uma pode ser tão mais pesada, quanto muito mais leve. Por exemplo: a hora é “essa” para pegar a estrada, mas você se encontra na ressaca desgraçada! Quem é maior? Ou; Sua moto não está arrumada com todos os cuidados que você gostaria que estivesse por uma questão de contratempos, mas não há mais o que se fazer... o encontro é amanhã! Vai ficar em casa? Ou melhor, O clube te chama e sem nenhuma explicação plausível sua Patroa pede que você fique em casa “e lhe promete algo”. E agora o que vem em primeiro lugar?

São questões como as de cima que definem seu compromisso com você mesmo em primeiro lugar. E não me venha com esse papo de altruísmo do seu eu, porque o que fica no final é só você e Você mesmo!

Mas o motivo dessa conversa ainda é outro, embora o assunto ainda seja honra.

Pegando essa foto, eu me recordei de um amigo meu que andou comigo por pouco tempo. Ele era um cara muito pra frente, espalhafatoso e gostava de esbanjar o que tinha de uma forma bem “imprudente”, assim dizendo. Sempre que podia tirava-me um sarro porque minha patroa nunca estava presente as festas, e uma vez, depois de tanto tempo lá estava a minha patroa “bem vestida”, mas não para um evento, na mesma mesa que eu tomando uma cerveja. Quando ele chegou e quis fazer um sarro com “a minha garota”.

Meu limiar de paciência não estava muito alto naquele dia por conta das coisas que passei na estrada e então, mesmo sendo do mesmo clube, perdi a paciência com ele e aí foi tudo pelos ares: Mesas, cadeiras e a cerveja agora estavam no chão e eu trocando socos com o “rapazinho pra frente”. Em volta, todo o clube cercava para que ninguém apartasse a briga, afinal, coisas do clube, se resolvem no clube, mas não significa que precisa ser na Sede. Minha mulher naquela época já sabia com o cara que tinha casado, e só tomou uma distância e já sabia que teria que comprar um bom saco de gelo depois daquilo tudo, mas a garota dele não... A garota dele era linda! Linda mesmo! Imagine uma mulher com uma beleza rara! Isso mesmo filho...

E então lá estava ela tentando separar a briga, porque a mesma não entendia nada sobre o clube. E é lógico que os nossos irmãos não iriam a deixar acabar com a festa, então a seguraram pelo braço; foi quando eu vi a barba do barrigudo roçar no pescoço dela na ideia de tirar uma “casquinha”. Me perdi com aquela ação daquele RATO (sim, é assim que nós chamamos os traidores no clube). E o rapazinho me acertou em cheio no rosto. O soco  eu nem vi, mas com certeza aquela cena da garota eu não esqueci jamais.

Beleza, a briga acabou quando eu caí e toda a galera se dissipou. Ele abraçou por cima do ombro a garota dele e pegou uma cerveja que estava em outra mesa e saiu andando. No meio fio lá estava eu começando a me levantar quando “sua mãe” chegou com uma cerveja:

- Valeu... –eu disse- Opa! Tá congelada!
- Não é pra você beber (mais!) é pra por na boca pra tirar esse inchaço. 
- hum... tá...

E por ali eu fiquei. 

A festa seguiu normalmente e eu evitei passar por perto do... você sabe quem... pra evitar mais cervejas derramadas. Mas tudo continuou bem. Afinal, o cara não é um inimigo, é o meu irmão! E irmãos brigam e brigam muito!

Fim do evento e nós voltamos para casa. O Comboio deslizou pela estrada de forma pacífica sem nenhum contratempo. Casa, banho (até que em fim um banho! Hehe) e cama...

No outro dia, o presidente passou no meu trabalho, um antigo almoxarifado de uma madeireira e me disse que tinha reunião hoje a noite. Acertei as coisas que tinham que ser acertadas no trabalho, peguei minha moto, e fui até a sede. Parei no bar do nosso galpão e abri uma cerveja antes de assentar na mesa. Ninguém chegou. Meia hora e ninguém. Quando de súbito aparece o camarada com quem troquei socos no evento. 

O cara se assentou do outro lado da mesa e acendeu um cigarro. Não demorou muito e outro barulho de moto apareceu lá fora, era a moto do presidente. Ele chegou , sentou-se entre eu (de um lado da mesa) e o cara (do outro lado da mesa), ajustou os anéis na mão direita, e então perguntou: e aí meninas? Como foi a troca de caricias no dia dos namorados? E então cada um riu de si mesmos. E daí saiu aquele sermão sobre não ser desunido, e ainda mais não mostrar desunião fora da sede. Que cada um poderia ser esquentado o tanto que quisesse, mas lá na sua casa, no seu quarto com a sua patroa. E isso todo mundo sabia que ninguém ia querer. 

Quando ele terminou o sermão, deixou a perguntas no ar: Estou sendo claro? Alguma dúvida?

E então, eu, com as mãos ali em cima da mesa, segurando a garrafa, apontei o bico para o cara disse: Fique de olho na sua patroa. Temos ratos até dentro do clube! O presidente me olhou torto, pois conhecia a má fama exterior dos seus membros, mas não aqui dentro. E os olhos do camarada quiseram me perguntar quem era. E eu sem meias palavras, disse o fato que vi.

É claro que ele discordou de mim, e junto disso acrescentou uma série de ironias, até que ele falou da minha patroa. A cena se repetiria se não fosse o presidente com sua automática apontada para nossas pernas, e a pergunta: quem vai ser o primeiro a mancar 3 meses? Porque sem colete vocês já vão ficar um Mês!

Os braços abaixaram e a sentença pesou feio nos nossos ombros. Do lado de fora, cada um saiu por um lado do galpão e pra mim isso já estava demais.

Fui pra casa, enchi a cara, dormi na garagem. Minha patroa não perguntou o que houve, com certeza respeitou o silêncio e o quanto de álcool eu havia digerido. A moto, ficou parada na garagem um mês. Pra mim, pra que moto sem o clube? (...) era o que eu pensava.

Mas com certeza esse Um mês, me valeu de alguma coisa. Foi aí que eu pude sair mais com pick-up e rodar mais aqui dentro do centro da cidade. Foi quando numa noite, numa madrugada pra ser mais sincero, depois da cerveja no clube com os caras, passando pelas quebradas de um bairrozinho que era considerado um “inferninho” da cidade, eu vi a patroa do meu camarada lá da festa. Sim, ela estava com outro. 

Encostei a pick-up, desliguei os faróis, apaguei o charuto. Fiquei olhando pra ver no que ia dar e não precisou de muito tempo até ver o necessário. A guria estava ficando com um camaradinha que tinha um grupo de motos Sport aqui na cidade. 

Embora eu soubesse que o barbudo (aquele que roçou a barba nela lá na festa)  era um filho da puta pelas suas macaquices que ele já tinha feito durante muito tempo, o rato ali não era ele, era a garota.

Liguei pra dois caras do clube e avisei pra eles chegarem onde eu estava e trazer além do deles, o meu bastão também! Aquele que tinha arame farpado em volta da ponta.

A Festa dentro da lanchonete rolava solta e aqui fora agente refazia a lataria das Rayabusas e R1’s dos otários lá dentro. Foi quando um apareceu pra atender o celular, viu tudo e voltou correndo lá pra dentro. Não demorou muito até os “jaspions” aparecerem ali fora. Mas o cara que voltou não tinha avisado que agente tava com os bastões... mas aí já era tarde. Ninguém levou nada na cara dessa vez. E talvez nem no corpo (por causa da Armadura japonesa). Mas sobre hematomas... eu já não posso falar nada.  Hehehe

A garota assustada quando me viu começou a gritar e então eu fiz sinal de silêncio pra ela e cheguei perto dela e disse: Entra no carro agora! 

Liguei a pick-up e disse pros caras. Daqui pra frente eu tomo conta. E fui embora...

Peguei o bastão de base Ball e encostei perto do pescoço dela enquanto dirigia com a outra mão. E disse: 

- Cê não vai querer que isso te encoste né?
- Pra onde você tá me levando?

Fiquei em silêncio. É claro que ela reconheceu o bairro, mas não quis dizer nada, por alguma justificativa.

Cheguei na porta da casa do camarada, arranquei a garota de dentro da pick-up e arrastei ela pela jaqueta até o jardim da casa dele.

Gritei o nome dele até a luz acender no andar de cima e ele aparecer sem camisa.

- Ta aqui ó! Cê perdeu essa merda lá no “inferninho”.
Ao que ele respondeu gritando Tb – com tom de desdém:
- Só que essa “merda aí” não é minha mulher mais! Terminamos ontem!

Era claro que o clube falara muito mais alto, e depois eu descobri que ele tinha terminado porque na hora que a briga estava rolando alguém fotografou e a foto foi parar no diário local do evento. E adivinha só: A foto era bem na hora do soco que eu tomei... No plano de fundo estava lá, a garota dele (ou melhor, Ex Garota dele)  com o pescoço debaixo da barba do Rato do nosso clube.

Então deixei a mulher lá... com os braços cruzados no meio do frio, entrei na pick-up e fui embora. Pelo retrovisor vi a garota se virar para frente da janela dele, e a janela dele se fechar, e a luz se apagar.

A semana passou rápido e então ele veio se desculpar sobre como agiu no evento, e me agradecer, que mesmo eu sem saber se eles estavam juntos ou não, e mesmo com problemas entre nós, o que valeu acima de tudo foi a irmandade.

E quanto ao rato? Você deve estar se perguntando... bem, levando em consideração de que ele é homem também e tem as mesmas tentações que nós, eu até o adsorveria. Mas não posso negar que a hora dele chegou bem rápido. E não foi nem pela minha mão, nem pela mão de ninguém. Foi pela mão do tempo... mas isso já é uma outra história.

quarta-feira, 2 de maio de 2012 0 comentários

Ultrapassar

Falamos a tanto tempo de "coisas da garagem" que as vezes nos esquecemos que a real emoção está na estrada. E não é uma ou outra vez em que estamos na estrada que nos sentimos bem, é SEMPRE! Sentir-se mal ou desconsertado é um desvio de curso que em geral até a própria estrada conserta (se não na ida, com certeza na volta). Mas não há uma das coisas que me coloca para pensar mais do que uma ultrapassagem.

Eu poderia até retirar aqui os valores de kilômetros por hora, torque ou mesmo a cilindrada de qualquer moto, mas o que fica na minha cabeça quando eu ultrapasso um carro é muito mais do que apenas um golpe de vista, uma rajada de vento de um caminhão que acaba de passar ou mesmo as condições da estrada. o que fica na minha cabeça é a vida de cada um que eu ultrapassei, transcendi, deixei para trás.

Sabe filho, quando eu era pequeno, me assentava na janela do sótão do celeiro do meu pai e ficava vendo a movimentação das pessoas ali por perto. Muita gente vinha comprar cereal do rancho de meu velho e por ali eu ficava... balançando as perninhas e brincando com uns fiapos dos fenos que se soltavam e ficava imaginando a história de cada um que vinha ali fechar negócio com ele. Sabe? Quem era a mulher daquele homem barbudo? Quantos filhos já teve esse outro velho? E essa mulher magra aí?! será que passa fome de verdade? e por aí eu ia... Mas o tempo passou e eu cresci e vi todas as coisas mais importantes que eu tinha naquela época escorregarem por entre os meus dedos! 

Olha filho, o tempo passa rápido demais! Mais rápido do que os números do odômetro.

E então eu cresci.

Algumas coisas, a poeira da idade encardiu ao ponto de eu nunca mais enxerga-las. Mas, há outras coisas que com certeza fazem muita diferença para mim até hoje. como é o caso de imaginar a história da vida de cada um. A clareza da estrada te permite esse tipo de reflexão sempre!

Quando eu era criança eu tinha muito que imaginar, hoje, depois de tanto tempo, basta olhar para o rosto de uma pessoa e já há muita coisa da vida dela ali escrito e não há nada mais claro de se ler do que cada rosto dentro de um carro de família quando se ultrapassa.

É claro que exceções existem e os papéis podem ser variados,  mas não tem nada mais fantástico do que ultrapassar um carro de família bem depois do almoço. E a cara de cada um é mais diferente da outra. por exemplo:

O filho mais novo do casal, pendurado no vidro da janela assiste um espetáculo de liberdade sobre duas rodas, e o brilho nos olhos não mentem que há uma chama que ainda existe em raros espíritos contrários a esse sistema idiota chamado Mundo. 

A filha mais velha, recostada para trás com o fone de ouvido, levanta-se repentinamente, mas ao perceber o que se trata, volta novamente a sua posição comoda, de não fazer nada e deixar o curso desse mundo. não a julgo, esse tipo de pessoa precisa existir para que eu diga aos meus filhos: Olha! nunca sejam como aquela garota lá! (...) 

O pai, como sempre dirigindo, com uma cara fechada (mas não de bravo), mas sim de frustrado com as contas, com a família ou sei lá mais o que, pragueja no seu próprio pensamento o quão marginal é o delinquente que está o ultrapassando agora. E por último e não menos importante, a mãe da família! 

Tenho certeza que se essa coroa tivesse umas Tattoo e um jeans rasgado ainda daria muito caldo. Mas lá está mãe de dois filhos, com os braços cruzados e olhando para a estrada... num pequeno, quase imperceptível instante ela olha no retrovisor do seu lado e em seguida acompanha minha ultrapassagem. O marido não consegue perceber a expressão de sua esposa pois está ranzinza o suficiente com suas rabugices. mas neste mesmo instante, aquela mulher imagina se sua vida tivesse tomado outros rumos e naquela garupa não estivesse colchonete ou alforges, mas sim, Ela. 

E com uma tentativa de fechada do motorista eu o ultrapasso não somente o carro, mas os conceitos fechados deste mundo velho demais para se renovar. deixando assim, aspirações de uns, o comodismo de outros, as ranzinzices de outros e o arrependimento de outros (e que ainda têm tempo enquanto respiram).


 
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