quinta-feira, 15 de agosto de 2013 0 comentários

Sexo e Viagem

É Verdade que pra sexo e viagem é a mesma tocada?

Hoje depois de muitos anos me deparei com essa pergunta quando em uma parada de posto na beira da estrada encostei minha velha moto para abastecer e um pequeno grupo de jovens de moto Sport pararam por lá também.

Me lembrei que quando era jovem poderia fazer longas viagens com as costas envergadas.  Lembrei também que hoje o que eu faço por paixão e zelo, fazia antes pela curtição. Lembrei que antes 300km só teria parada para abastecer; em pé (montado na moto) pra não perder o ritmo e hoje a cada 180 km eu já devia ter parado a uns 30 km atrás pra mijar ou um outro velho que andar comigo também precisa parar para endireitar as costas ou mesmo fumar um cigarro.

O fato é que estamos velhos.
Mas nunca velhos para uma viagem.

A distância que um jovem alcança em estrada, eu faço hoje com meus cabelos brancos o mesmo. porém paro mais, respiro mais, descanso mais e cuido mais de mim. é uma tendencia! Mas chego lá.

e vai falar que tudo isso aí pra cima não é igual a sexo?

Poisé, os tempos já não são os mesmos e não há aditivo para a moto ou para o homem que o mantenha "de motor funcionando em pleno estado" para sempre. Uma hora tudo pára. Não que a minha hora tenha chegado, mas os avisos de um motor "batendo as bielas" já dá pra se ouvir.

Seguindo o passo juntamente de sua relação conjugal (seja com sua esposa ou a moto), um club (caso você faça parte de um), revela comportamentos muito mais próximos do que você imagina. Afinal de contas quando um não quer... (o clube não briga)

Pense na diversidade entre você e sua parceira, encare isso como uma diferença natural. Ambos possuem "cilindradas" diferentes, torques diferentes, consumos diferentes e mesmo assim têm que andar juntos.

Agora adicione além de sua idade e seu preparo físico, outros 3 ou 4 velhos (ou homens de idade avançada! vamos falar assim para eles não ficarem mais ranzinzas) nesta mesma estrada de vida. Pense  no que a vida fez com cada um. Efizemas pulmonares, câimbras, úlceras, vícios e uma série de "problemas de velhos". Mas, acima de tudo, ainda continua espírito libertário. Aquele que se esquece de toda e qualquer espécie de problemas que os assombram quando a estrada os chama. Sim! aquela larga faixa negra pontilhada de amarelo no meio de uma natureza que poderia ter sido intacta, mas nós, seres humanos, pelo instinto da conquista decidimos desvirginá-la. 

pense que tolerá-los não é muito diferente do que uma relação conjugal. E é mais que implícito que a estrada seja o ponto culminante de uma relação íntima! 

É lá que descobrirmos as imprudências, a cortesia, os estresses e um temor aqui ou acolá. 
É nesta mesma estrada que descobrimos o que cada um "contou de si mesmo" na mesa do bar. É lá que o camarada vai ter que provar que faz mesmo o que disse que fazia! E ainda sim, não é uma competição. 

Depois de um tempo, descobre-se que a vida nunca foi uma competição como ensinaram na escola e ou no trabalho. Sempre foi um jogo de sustentação entre irmãos! Parceiros de grande intimidade que pessoas de fora jamais compreenderiam.

e eu, depois de abastecer a minha "velha" esperei a molecada trilhar seu caminho e sumir na linha do horizonte.
domingo, 11 de agosto de 2013 0 comentários

Ordem e progresso?

Durante toda a minha vida eu fui medido, pesado, testado e revisado por todos as pessoas responsáveis que tratam de qualquer ser humano desde a infância até a velhice.Números nos acompanham a vida toda, seja no seu peso, na sua idade, no velocímetro, na sua altura ou qualquer outra coisa. Todos nós sabemos que isso é um fato. Porém o que poucos percebem é que os números não vem soltos e/ou desconexos. A grande realidade é que os números são criados para colocar as coisas em ordem e essa ordem dita um determinado progresso.

Não é atoa que eu estou fazendo uma analogia a bandeira brasileira cuja frase no centro da faixa diz: Ordem e Progresso. Mas o que eu quero dizer é que muito além de ser uma frase positivista, faz sentido lógico e é por isso que me recordo de algumas coisas de alguns anos atrás que precisei por em prática.

Há muito tempo atrás quando ainda jovem, eu fiz parte de um determinado clube de motos. Não era muita coisa, mas tínhamos sempre companhia para estrada, para a cerveja e para os problemas. Volta e meia todo mundo era parado numa blitz e não uma ou duas vezes passávamos a noite dentro da delegacia na "sala especial" jogando conversa fora e relembrando as viagens que havíamos feito. Nunca foi um empecilho passar uma noite lá, visto que estávamos sempre muito acompanhados, e no outro dia tomávamos café da manhã na padaria e esperávamos o escritório do advogado e do contador conhecido do clube abrir, para corrermos atrás das motocicletas apreendidas.

De fato a vida era boa, parecia perigosa, mas no máximo era engraçada. Mas nem tudo eram flores.

A maioria de nós sabe que membros de um clube passam um período da vida de "motor quente". Não é como a TPM da mulherada que tem dia marcado e é só se agendar direito pra esperar passar. Muitos de nós passam por longos conflitos internos, lutando dentro de nossas próprias mentes com nossos fantasmas que nos assolam e chega uma hora que a gente não aguenta. Este estopim pode vir por algo nada a ver: uma conta  não paga, um problema com pais ou parentes, a ausência e a saudade de alguém ou mesmo uma época em que se dorme mal. 

Mas o problema não mora aí, na verdade como você cuida do problema é que pode ser o verdadeiro problema.

Ainda ha muito tempo atrás tínhamos um documentário lá na sede de uma famosa banda de rock'n roll em que o vocalista, enfurnado em depressão dizia que o dia dele se resumia em beber o máximo possível somente para o dia passar logo e chegar outro dia para continuar o mesmo ciclo. Sabíamos que todos tínhamos problemas, mas de fato não era assim uma forma correta de se tratar de um problema (mesmo porque ele está apenas ignorando ou fugindo dele), e alguns membros pensavam que este cara estava certo em encher a cara e ter que desabafar em alguém. A verdade é que haviam membros que pensavam que não deviam haver segredos nenhum dentro do clube, o que era (E ainda é) um absurdo. eles achavam que todos eram obrigados a ouvir suas mazelas e ainda ter que passar a mão na cabeça de um ou de outro. E dentre essas e outras merdas foi que eu pedi o meu afastamento.

As coisas ficaram pesadas entre os membros, um não ajudava o outro pelo fato da irmandade e de bom grado, todos estavam ali presos por um maldito estatuto, entupido de letras, parágrafos, incisos e regras que transformavam o humano mais livre e propenso a reflexão (no caso o motociclista) num robozinho modelado debaixo do sim "sinhô", não "sinhô". E foi na minha até então última reunião de mesa , justamente nos meus dias de motor quente que eu coloquei pra fora o que me guiou durante muitos anos, e ainda me propus a seguir:

Disse que nossa vida era feita de parceria e irmandade, mas que antes de qualquer pessoa, volta e meia o EU devia vir também a frente. Disse também que o "primeiro EU" na verdade era um tempo que todo motociclista precisa ter andando sozinho na estrada, repensando as atitudes, planejando melhor seu ser e organizando sua cabeça enquanto divide o pensamento com o ronco do motor. 
Uma vez que o EU está organizado, eu posso ser uma ajuda dentro da sede, Cooperando com todos (o NÓS). não significa que os irmãos ficarão na mão por algum bastardo desertor, mas que na verdade é aquela hora que você deixa alguém sozinho porque mesmo que ele não te peça pra ficar sozinho, você sabe que ele precisa disso. Terminando minha sequência de gritaria e tapas na mesa (sim, quando somos jovens as palavras apenas não bastam),  disse que só cada um colocando a sua cabeça em ordem, o clube iria progredir. Por isso sempre havia respeitado os desejos de ficar só e os silêncios de cada um. Sem mais, levantei, e fui embora.

ficar só...

É claro que do clube eu nunca sai, afinal eu tinha a minha alma impregnada naquilo. Demorou anos, até que todos naquela mesa pudessem entender o que eu estava dizendo e ainda por cima ensinar aos novos prósperos que estavam entrando.  Depois de tudo isso, em ordem. O clube desfrutou de um certo progresso. Mas isso não evitou que continuássemos a passar noites naquela "sala especial" na delegacia. mas aí já é outra história!

segunda-feira, 29 de abril de 2013 0 comentários

A porta

Quando eu era criança passava em frente a uma sede de um clube de velhos fuzileiros. e nela havia uma plaqueta bem na porta ao qual estava escrito:

"Da porta para frente é algo,
da porta pra trás é algo,
escolha um lado
mas não fique debaixo do batente".

Em resumo: Entre ou caia fora. Como desde pequeno eu não tive nenhuma feição com a carreira militar, o lado de fora do clube me era bastante interessante, Até o dia e que descobrimos que um dos membros do nosso velho clube de motos foi um sobrevivente da guerra durante a minha vida jovem e tendo saído do clube de fuzileiros resolveu contar pra gente o que acontecia lá dentro...

Ele ria e dizia -  lá dentro não acontecia nada.... e ria... a gente só bebia whisky, dava manutenção nas armas, ouvia johnny cash e um pouco de Elvis... E relembrava os dias de glória. Alguns batiam continência para algumas fotos dos soldados que já se foram... mas lá dentro não acontecia muita coisa.

Como ele sempre citava muito o "lá dentro", eu percebi que havia então o "lá fora" e então resolvi perguntar. Foi quando ele esqueceu do cachimbo e pôs-se a contar que o "lá dentro" é como o cérebro, as memórias e o "la fora" é o dia a dia do corpo. Era "lá fora" que provávamos para nós mesmos o que era um clube. Era lá fora que visitávamos os irmãos que já não podiam andar. Era "lá fora" que amparávamos as velhas viúvas que viram nossos irmãos desfalecerem. Era "lá fora" que visitávamos os pais dos nossos irmãos que por um chamado da nação tiveram que voltar para o campo de batalha e por lá ficaram, fazíamos dos pais deles, nossos pais... amparando, levando coisas do mercado, ou mesmo conversando num fim de tarde. Foi assim que fizemos amizades com os pais de nossos irmãos ao ponto de chama-los de pais pra nós também. Foi assim que compreendemos que não sentiríamos remorso ao ver a viúva de um irmão nosso casar novamente com outro irmão nosso. Afinal, uma família cuida de si muito além do laço de sangue...
E por aí vai...

Naquele momento, surgiu um instante de silêncio em respeito à memória do velho. Mas logo ele recobrou a carrancha e pegou o cachimbo... mas continuou. dirigindo-se a mim:

Você lembra do que tinha escrito naquela porta antiga do clube? ao passo que confirmei. E ele continuou: poisé... Aquilo sim tinha um grande significado pra mim e fico feliz em ter feito isso valer para todo o clube. Tanto o militar antes de sobrar só eu vivo, quanto para esse clube aqui que resiste a décadas...

Enquanto ele falava eu fazia as ligações dentro da minha cabeça de tudo que ele falou quando pela primeira vez, sentamos em volta de uma mesa do velho bar da cidade e com um pedaço de guardanapo e uma caneta escrevemos o que tinha que ter num estatuto e como deviam ser alguns tratamentos para o nosso clube... isso há décadas atrás...

Me lembro exatamente dele falando de que quando um membro era convidado, era como se ele passasse por debaixo de uma porta. Exatamente aquela que ele tinha escrita lá no clube militar. Ele tinha um privilégio que ninguém teve lá do lado de fora. Fala também que esse privilégio trazia responsabilidades pra sempre e que caso ele tivesse desonrado seu compromisso com "estar lá dentro" seria melhor que ele nunca tivesse entrado por aquela porta. Que do outro lado seria bastante confortável (como punição). Mas que aquele fato seria tão desmerecedor de respeito quanto de alguém ali debaixo do batente da porta...espreitando. 

E isso fez um sentido sério pra mim.

Fez com que prósperos que não passaram pelo teste fossem vistos como escória nos outros dias após a expulsão. "fossem vistos" é estar exagerando no enxergar... Fez com os indecisos se separassem entre Irmãos para sempre e apenas poeira no vento. Fez com que irmãos que fossem aceitos, recebesse uma família digamos assim... com laços mais fortes e por aí vai.


O velho militar reformado, terminou o cachimbo após ter falando muito e ficou mais um pouco em silencio.

Depois de um tempo, pegou uma cerveja e deixou a sede. esperávamos que ele ligasse a velha pan-head e "tirasse a cara" mas não. Então olhei pela vidraça embaçada de um canto do clube e pude ver o velho lá do outro lado da rua... Quase perto da esquina, de frente para os escombros, fazendo continência para algo que tanto significou para ele.











sexta-feira, 18 de janeiro de 2013 0 comentários

A Liga

Hoje enquanto folheava velhos jornais na garagem, me recordava dos tempos difíceis de ser motociclista e ainda por cima pertencer a um clube sério. Não me refiro somente a hoolister que deu mais dinheiro pra hollywood do que dor de cabeça para clubes; Mas com certeza também não me refiro a essa palhaçada que eles chamam de motoclube hoje, em que ninguém respeita ninguém, só os baixos trabalham, Em que ninguém sabe mexer nas motos, Em que há homens que dormem cedo para trabalhar no outro dia com empregos cada vez mais modernos. E hoje eu não sei sei isso está Certo ou Errado.

Ha muito tempo atrás, havia uma professora velha que me batia na palma da mão quando criança na escola e dizia: isso é para o seu bem. Tem coisas que funcionaram mesmo. Uma delas é que o conceito de certo e errado para mim, que nunca foi e nunca vai ser igual ao dela e o de muita gente. 

Quando se fala de clube o conceito de certo e errado é muito relativo. Principalmente porque ele pode mudar drasticamente quando se fala em singular ou em plural. pra ficar mais fácil, imagine um lobo.

Um lobo sozinho é um cachorro no meio do mato, ele anda atencioso, nunca late ou rosna para nada, foge na maioria das vezes (evitando problemas) e não é necessário um animal muito grande para afrontá-lo. Não se esqueça que quando se encontra Um Lobo sozinho, tem algo bem errado! só que quando esse mesmo lobo se encontra com A Matilha, a coisa muda de figura. Ele toma outro comportamento no grupo e age como um membro de um corpo (como se uma mão levasse a comida a boca para que todo o corpo ficasse alimentado). É ali nessa de família que todas as ações anteriores tomam valores diferentes. Uma matilha é algo amedrontador, eles andam largados com as coisas porque estão em grupo, rosnam e avançam com latidos e mordidas no ar para qualquer tipo de animal que se abaixa para beber a água do lago, poucas as vezes eles evitam problemas porque a luta está no mínimo desequilibrada em favor deles... e isso não é errado. o que está em jogo aqui não é o equilíbrio de poderes, mas o que o mundo chama de Crueldade ou covardia, é o que a Matilha diz que é certo. a força e a ação de todos ao mesmo tempo não é para apenas ter força. é exatamente para dizer que todos estão de acordo na mesma proporção quando uma coisa é feita.

O que acontece aqui é pura e simplesmente A LIGA! sim! essa cola que diz que todos agem como um só, e um só pode fazer algo em nome de todos, porque todos vai topar a mesma parada. 

É esse sentimento que deve rolar dentro de um clube. Entretanto temos tantos individualistas nos dias de hoje, que uma batida policial ou mesmo uma afronta, fica por conta de um cara só que "se vira" e nem sempre se dá bem. 

mas aí já "não é problema meu". 
 
;