domingo, 11 de agosto de 2013

Ordem e progresso?

Durante toda a minha vida eu fui medido, pesado, testado e revisado por todos as pessoas responsáveis que tratam de qualquer ser humano desde a infância até a velhice.Números nos acompanham a vida toda, seja no seu peso, na sua idade, no velocímetro, na sua altura ou qualquer outra coisa. Todos nós sabemos que isso é um fato. Porém o que poucos percebem é que os números não vem soltos e/ou desconexos. A grande realidade é que os números são criados para colocar as coisas em ordem e essa ordem dita um determinado progresso.

Não é atoa que eu estou fazendo uma analogia a bandeira brasileira cuja frase no centro da faixa diz: Ordem e Progresso. Mas o que eu quero dizer é que muito além de ser uma frase positivista, faz sentido lógico e é por isso que me recordo de algumas coisas de alguns anos atrás que precisei por em prática.

Há muito tempo atrás quando ainda jovem, eu fiz parte de um determinado clube de motos. Não era muita coisa, mas tínhamos sempre companhia para estrada, para a cerveja e para os problemas. Volta e meia todo mundo era parado numa blitz e não uma ou duas vezes passávamos a noite dentro da delegacia na "sala especial" jogando conversa fora e relembrando as viagens que havíamos feito. Nunca foi um empecilho passar uma noite lá, visto que estávamos sempre muito acompanhados, e no outro dia tomávamos café da manhã na padaria e esperávamos o escritório do advogado e do contador conhecido do clube abrir, para corrermos atrás das motocicletas apreendidas.

De fato a vida era boa, parecia perigosa, mas no máximo era engraçada. Mas nem tudo eram flores.

A maioria de nós sabe que membros de um clube passam um período da vida de "motor quente". Não é como a TPM da mulherada que tem dia marcado e é só se agendar direito pra esperar passar. Muitos de nós passam por longos conflitos internos, lutando dentro de nossas próprias mentes com nossos fantasmas que nos assolam e chega uma hora que a gente não aguenta. Este estopim pode vir por algo nada a ver: uma conta  não paga, um problema com pais ou parentes, a ausência e a saudade de alguém ou mesmo uma época em que se dorme mal. 

Mas o problema não mora aí, na verdade como você cuida do problema é que pode ser o verdadeiro problema.

Ainda ha muito tempo atrás tínhamos um documentário lá na sede de uma famosa banda de rock'n roll em que o vocalista, enfurnado em depressão dizia que o dia dele se resumia em beber o máximo possível somente para o dia passar logo e chegar outro dia para continuar o mesmo ciclo. Sabíamos que todos tínhamos problemas, mas de fato não era assim uma forma correta de se tratar de um problema (mesmo porque ele está apenas ignorando ou fugindo dele), e alguns membros pensavam que este cara estava certo em encher a cara e ter que desabafar em alguém. A verdade é que haviam membros que pensavam que não deviam haver segredos nenhum dentro do clube, o que era (E ainda é) um absurdo. eles achavam que todos eram obrigados a ouvir suas mazelas e ainda ter que passar a mão na cabeça de um ou de outro. E dentre essas e outras merdas foi que eu pedi o meu afastamento.

As coisas ficaram pesadas entre os membros, um não ajudava o outro pelo fato da irmandade e de bom grado, todos estavam ali presos por um maldito estatuto, entupido de letras, parágrafos, incisos e regras que transformavam o humano mais livre e propenso a reflexão (no caso o motociclista) num robozinho modelado debaixo do sim "sinhô", não "sinhô". E foi na minha até então última reunião de mesa , justamente nos meus dias de motor quente que eu coloquei pra fora o que me guiou durante muitos anos, e ainda me propus a seguir:

Disse que nossa vida era feita de parceria e irmandade, mas que antes de qualquer pessoa, volta e meia o EU devia vir também a frente. Disse também que o "primeiro EU" na verdade era um tempo que todo motociclista precisa ter andando sozinho na estrada, repensando as atitudes, planejando melhor seu ser e organizando sua cabeça enquanto divide o pensamento com o ronco do motor. 
Uma vez que o EU está organizado, eu posso ser uma ajuda dentro da sede, Cooperando com todos (o NÓS). não significa que os irmãos ficarão na mão por algum bastardo desertor, mas que na verdade é aquela hora que você deixa alguém sozinho porque mesmo que ele não te peça pra ficar sozinho, você sabe que ele precisa disso. Terminando minha sequência de gritaria e tapas na mesa (sim, quando somos jovens as palavras apenas não bastam),  disse que só cada um colocando a sua cabeça em ordem, o clube iria progredir. Por isso sempre havia respeitado os desejos de ficar só e os silêncios de cada um. Sem mais, levantei, e fui embora.

ficar só...

É claro que do clube eu nunca sai, afinal eu tinha a minha alma impregnada naquilo. Demorou anos, até que todos naquela mesa pudessem entender o que eu estava dizendo e ainda por cima ensinar aos novos prósperos que estavam entrando.  Depois de tudo isso, em ordem. O clube desfrutou de um certo progresso. Mas isso não evitou que continuássemos a passar noites naquela "sala especial" na delegacia. mas aí já é outra história!

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