sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012 0 comentários

constancia

Do tempo que me sobrou após a morte de minha esposa, pouco me dediquei a novas atividades, senão à oficina e a estrada. Amigos? Ha muito tempo não os vejo - mesmo porque muitos deles, ainda em "vida" já morreram - mas a verdade é que meu espírito ainda se satisfaz só com o vento no rosto e o asfalto. Mas nem tudo é sempre cinza(s).

Certa Vez, fui visitado por um velho amigo do meu tempo de cabelo preto. Magro e encurvado, não consegui reconhece-lo quando deu as caras aqui na garagem, Mas foi o simples fato de ver todas aquelas tatuagens enquanto ele retirava a jaqueta do Exército (ao qual ele nunca serviu), que todas as minhas memórias foram restauradas como se entre a última vez que o vi e hoje, fosse apenas um fim de semana.
Velho e acabado, como eu, não perdeu os bons costumes: Chegou de moto, bebeu um whiskey e aceitou um charuto que lhe ofereci.

-Como vai essa força aí, meu "jovem" ? - Perguntei
-Já fui bom nisso! - Respondeu ele olhando para os posters com mulheres sentadas em Harleys, pregados na parede... Em seguida, viu a cabeça e com a cara de bem sacana me perguntou: Dizias?

O filho da puta era ainda o mesmo! Para minha alegria. Limpei as mãos de graxa numa bacia com gasolina e o convidei até o antigo escritório onde ainda havia cervejas no frigobar.
Conversamos muito, rimos dos bons tempos que um taco de baseball resolvia alguns problemas no bairro vizinho, recordamos também de cada história que cada cicatriz em cima de uma das tatuagens carregava e lembramos disso com orgulho.

Certo ponto da conversa, ele me perguntou de um amigo em comum, que muito se deu bem na vida, mas que nunca foi tão frequente na estrada quanto nós:

-E aí? O que será que aconteceu com ele? - Perguntou.
-Não sei, viu... Se já era raro encontrá-lo pela estrada antigamente, quem dirá agora.
-Um motociclista e tanto, né? - enquanto virava uma garrafa.
-Não... - enquanto eu virava a outra.
-Não? como não? Vocês tinham moto antes de mim, contavam histórias antes de mim, o que houve?
-Nada, acredito que eu não tenho o poder de julgar ninguém, mas... - Dei outro gole na cerveja.
-Mas? (...)
-Mas eu acredito que motociclismo é uma coisa muito mais instável do que fixa. O fato de ter uma "mil" não faz de você um motociclista. Há uma gama de idéias e Ações, que lhe descrevem como motociclista. E se você para de rodar, não é motociclista... é apenas história.

Ele maneou a cabeça para frente segurando a garrafa entre os dedos e concordou comigo. Mas ainda sim, insistiu: 
-O que você pensa disso?
-Meu velho, não posso julgar ninguém para ninguém. o que eu faço é apenas acertar o foco de como é o mundo pra mim; e nesses meus velhos e grossos óculos eu tento desburocratizar tudo, o máximo possível. Para mim, não  há diferença entre certas nomeclaturas (como motociclista e motoqueiro, por exemplo). O que existe é: Alguém que nasceu para isso e alguém que já está tempo demais ainda em cima de uma moto...
-He he he... e eram esses os mais gostosos de derrubar! lembra?
-Claro! Mas, deixe-me continuar. Na minha visão, a única "diferença" existente é de motociclistas e apreciadores.
-Como o caso dos colecionadores?
-Mais ou menos. Deixe-me dar um exemplo: Meu falecido sogro possuiu um interessante histórico com motos: Aos 15 anos ele ganhou de seu pai sua primeira moto. Junto com os outros irmãos (que também já tinham o mesmo presente) eles andaram muito. Visitaram cidades por onde nunca passamos e cidades que também já passamos. Minha sogra sempre contava a história de quando o conheceu, de que ele estava sempre de moto e adicionava os detalhes dos seus encontros como: "O barulho do motor daquela motona"... eles se casaram, e há uma foto dos dois em cima da mesma moto...

Quando minha esposa cresceu e pôde pilotar uma moto, foi ele quem a presenteou com uma; era ele que sempre fazia os reparos na moto: troca de óleo, calibragem, limpeza e etc... O velho tinha uma coleção de miniaturas de dar inveja além de todas as revistas dos últimos 15 anos antes de sua morte. Sem dúvida, um exemplo a se espelhar. Mas tão certo quanto a minha e a sua Harley ligam da mesma forma do que 30 anos atrás e estão prontas para uma viagem de 40 dias no deserto, eu te digo com todas as palavras que ele nunca foi um motociclista.

Motociclismo é uma junção; não, não estou falando de mecânica, mas é quase isso. Motociclismo se faz com 3 coisas: Espírito livre, moto e tempo (muito tempo) em cima dela. caso você só tenha o espírito livre ou só a moto, não exite em ser chamado de Hippie ou colecionador...

Ser motociclista é como o outro lado da balança em referência a sua vida "certa" (trabalho e família e etc.). Para tudo isso funcionar, as coisas precisam estar equilibradas (se não, tombadas mais para o lado da garagem). E não pense que é utópico, ou até errado. Viver uma utopia boa (de uma maneira geral) é uma dádiva para poucos.

O velho que estava ali comigo sorriu ao contemplar sua própria vida e perceber então que "apostou bem" seu dinheiro, sua vida e sua saúde em cima de uma ideia com duas rodas.

-...E digo mais, ponderar uma vida em volta de uma paixão é uma das coisas mais nobres de se fazer. Mas, dizer que foi casado com a Marilyn Monroe, só porque viu as fotos dela num poster dessa parede, meu velho... aí é outra coisa.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012 0 comentários

Imutável

15/02/12 IMUTAVEL

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante” foi a frase que guiou muitos durante muito tempo. Uns empolgados pela pegada da harmônica que a música tinha, outros por ideologia. Mas quer saber: não há como preferir ou escolher ser uma metamorfose ambulante e deixar a vida a esmo.  É por isso que tanto eu, quanto você, escolhemos ser “imutáveis”.

Eu sei que de cara você não vai concordar com isso e vão faltar dedos em suas mãos (E pés) pra me provar quantas coisas você já mudou. E não se assuste, eu não quero saber. O que está em jogo aqui não são as “mudanças” que você fez pra agradar alguém, por algum tempo. Mas, as mudanças que fez e nunca mais desfez. É por  isso que novamente eu torno a dizer que nós, você, eu e toda a humanidade cremos e escolhemos andar sobre a alcunha de imutabilidade.

Embora isso se pareça ruim ou não seja visto com bons olhos, acredite guri, é exatamente isso que nos torna diferentes um dos outros! São nossas escolhas, fixas, estreitas, imutáveis que carregamos ao longo do tempo que nos torna dignos de possuir uma identidade única. E quando me refiro a identidade única, esteja certo. Ninguém é igual a você. Nem quem você acredita que seja sua alma gêmea. Ela é no mínimo um complemento ao que te falta. É o seu alter-ego. É alguém que você nunca quer e/ou vai ser. Mas semelhante à importância da gasolina para a sua moto, essa pessoa é pra você. 

Não é estranho conhecermos pessoas que estão juntas e de fato são opostas, não são “almas gêmeas” e muitas vezes são almas inimigas, mas seus pontos opostos são como os dentes da coroa que se encaixam na fenda da corrente, arrancando a moto com firmeza, sem deslizes. Mesmo assim, são pessoas diferentes.

Encontrar uma guria para ser sua Senhora, de fato não é uma tarefa fácil, nunca foi e nunca será. Mas é necessário tato (literalmente) para compreender onde esta senhora o completa, através de suas falhas, sem lhe arrancar nada.

Independente de sua preferência de companhia (ou solidão) de viagem, há interessantes sensações de uma boa companhia, como recostar as costas nos seios dela enquanto pilota! Ou quando parar par a um acampamento ter algo mais quente do que a fogueira e o whiskey pra se aquecer. Sem contar nas histórias  pra acumular a dois. Sobre tudo, afirmo novamente, ninguém é igual a ninguém e todos somos imutáveis. 

Você pode achar estranho isso, ou até algo parecido com um desabafo. De fato seria sim a alguns anos atrás. Se eu não aprendesse que não há melhor companhia do que somente a sua mesma, e que “quem nasceu pra ser solitário precisa de muito tempo sozinho”.  Seria um desabafo de um jovem lobo solitário. Mas é a vida, e nela, sou muito grato por aprender desta forma. O que eu quero dizer, ou onde eu quero chegar é : Se você tem alguma pretensão de ter alguém no seu carona, abraçado a você, com o rosto no seu retrovisor, é bom que escolha antes alguém que já goste disso. Com todos os meus dentes podres na boca, o que eu quero dizer é que NUNCA TENTE ADEQUAR ALGUÉM. Modificar uma pessoa ao seu capricho pessoal é como tentar fazer um pato latir. Você não vai conseguir nem um “au” e o pato vai ficar muito estressado.

Pegar uma estrada com uma companhia é sentir-se honrado, pegar uma estrada sem uma companhia é ter a esperança na irmandade existente em cada motociclista que se encontra na estrada e/ou no destino, mas não pegar uma estrada por conta de uma companhia é desrespeitar si próprio.

Privar-se de seus hábitos ou diversão a troco de necessidade alguma de alguém, apenas por puro zelo deste que te serve como âncora num porto é um dos piores males existentes entre os “humanos desumanos”.  Ter uma necessidade de presença do outro é amplamente compreensível, o grande axioma problemático está quando este que te “detém” o faz por puro capricho, na necessidade de te re-modelar no parâmetro pessoal deste primeiro. 
E fugindo ao vocabulário culto aí acima, a coisa fica muito simples depois disso tudo: O barco amarrado não agüenta ver a maré puxar e rompe com a corrente da ancora desatando um único elo para aí sim, cada um fazer exatamente o que nasceu pra fazer: o barco para seguir seu curso, e a ancora para afundar e ficar parada. Infelizmente é uma realidade, mesmo sabendo que um barco precisa de uma ancora e que uma ancora sem um barco não tem utilidade.

Respeite as pessoas que você escolheu trazer pra perto de você. Se elas quiserem vir contigo, curta! Rock’n roll tá aí pra isso! Se não, Respeite-as, arrume a  sua moto e vá sozinho. Pode ter certeza que nem na estrada e nem no destino você ficará sozinho. Mas vá!!
 
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