segunda-feira, 12 de janeiro de 2026 0 comentários

Guerras contra, Guerras a favor

         Nos anos difíceis do clube que pertenci, antes de você ter aprendido a falar, tínhamos que fazer muito para sustentar “as coisas” que fazíamos. Uma delas era defender o nosso espaço. Perdemos pessoas que chamamos de irmãos, que vieram aqui em casa e jantaram com sua mãe e eu, que carregou as compras da sua avó na rua e que esteve comigo quando tive que me recuperar no hospital por semanas por conta de um acidente. Essas pessoas eram importantes demais para nós. Mas infelizmente se foram.

Naquela época não havia a internet como é hoje. As pessoas não tinham essa intensa necessidade de mostrar para o mundo cada mísero detalhe das suas nuanças. Elas se ajuntavam pelo lógico e obvio além de seus sensos de moral. Se uma pessoa gostava de cheeseburguer com um pão diferente ou outra gostasse apensa sem nenhum molho, não ficavam nestes por menores, todos gostavam de cheeseburger e foda-se.

O fato é que com o tempo essas pequenas diferenças se tornaram palco ou meta para as pessoas defenderem unicamente e exclusivamente essas metas com suas vidas, como se estivessem militando É... vc já ouviu esse termo antes!) numa única frente de batalha uma guerra inteira. E por isso as guerras contra racismo, religiões, política possuem personificações.  Essas são as “guerras contra”. Naturalmente uma pessoa equalizada com o bom senso terá boas opiniões sobre essas coisas, mas não ficará batendo numa só pauta a vida toda.

Dizer que isso é o obvio é ridículo.  seria como quando tive que ensinar a você a aprender a não colocar a mão na tomada. São princípios básicos, mas também te ensinei a não mexer com fogo sem minha ajuda, não correr com objetos pontiagudos. Meu inimigo não era a tomada nem o fogo tão pouco objetos pontiagudos... era com você que eu estava me preocupando.

Por isso, penso que as pessoas perdem suas vidas com linhas únicas de “guerra contra” uma só coisa ao invés de serem a favor de si mesmas, de seus ideais, dos seus... contra todo o resto.

                Ser contra coisas óbvias e aprender que minúcias podem parecer certas e comuns, mas no final são erradas, faz todo o sentido para nossa humanidade. Mas não gaste sua vida (consciência, tempo, saúde e reservas) com coisas que nunca serão totalmente erradicadas. Mas, gaste sim todos esses valores de vida com as pessoas que estão próximas de você, que você as considera. Honrando-as, protegendo-as e suprindo para que estejam firmes quando você também cair.

                Depois de um tempo, entendemos que “Guerra” é o tempo todo, e não precisamos esquentar a cabeça contra o que ou quem, mas sim em favor de quem precisamos lutar. O inimigo ou as dificuldades pouco importam se seu objetivo é fortalecer seu núcleo.

                Um ditado judeu já dizia, “se todo mundo varrer a porta de casa a rua fica limpa”. E hoje você já é crescido o suficiente para compreender quem é a sua casa, e zelar por ela.

segunda-feira, 19 de abril de 2021 0 comentários

As gavetas da alma

Será que com um pouco mais de 100 anos de uma criação é o suficiente para transformarmos uma cultura numa religião? foi assim com tantas coisas, por que não seria diferente com a motocicleta?

Duas guerras mundiais marcaram sua presença, reforçou laços e a cereja do bolo hoolywoodyana foi o suficiente para chancelar não só uma forma de se locomover, mas, um estilo de vida. De lembrar os cavalos... que conquistaram os castelos nas cruzadas e que conquistaram o Oeste na corrida do ouro.

Mas de um tempo pra cá eu fiquei me perguntando: Seria mesmo essa máquina de duas rodas o caminho para a redenção? para a salvação? para a reflexão e contemplação?

Se assim fosse, mochileiros, viajantes de motor-home, peregrinos não estariam se encontrando (se religando com o Todo) como fizeram a tantos anos e ainda fazem (e não devem parar tão cedo).

Então a moto... não é.

Resolvi abaixar a cabeça como os antigos índios e "ouvir o chão". a estrada (ou as estradas) são muito pessoais. Diferente umas das outras, mas muito pessoais. Passamos quando vamos viajar a trabalho, a lazer, a funeral, a casamentos e inclusive quando buscamos ou fugimos de algo. Com tantos motivos e tantas vezes visitadas em situações adversas, não poderia ser a estrada o "verbo de ligação". Quantas vezes passei por uma estrada sem resposta. fui sem resposta e voltei sem resposta. 

Então a estrada... também não é.

Em alguns países (como o meu) é expressamente proibido transitar sem capacete. E com certeza isso é um saco. "mas é para seu próprio bem" - Eles dizem. Depois de um tempo vira uma moda, cores, tamanhos, lentes, marcas e por aí vai. Mas não é o que está do lado de fora que faz "a conexão". É ali dentro mesmo. É Dentro do capacete que você descobre UMA DAS formas de conectar as coisas e organizar corretamente as gavetas da alma. 

É no momento de maior atividade cerebral possível que o Cerebelo se encarrega do equilíbrio do corpo; que o Lobo occipital processa a visão da estrada que se aproxima próximo dos 120km/h; Que o pré-frontal toma a decisão de desviar de um buraco ou a inclinação correta que virá para uma curva e com tudo isso à 6000 RPM você descobre Paz. Consegue ver o horizonte. Aquela briga dentro de você que antes era com os outros ou com algo, agora acalmada e divida com a sincronia da estrada dá espaço a compreensão das coisas. É por isso que acidentes de moto acontecem (também) por coisas não resolvidas dentro da cabeça e também é por isso que decisões são sabiamente tomadas depois de uma longa viagem.

É Dentro do capacete. 
(Com o sem capacete)

Emocionar-se, organizar prioridades, responder questões pessoais, tomar decisões familiares, encontrar alternativas ou resoluções fazem parte desse processo "tenso de relaxamento" na estrada. e como as choppers, quanto mais peso você se desvencilhar, mais rápido roda.

Por isso que não importa como vc pegará a estrada ou qual a estrada.  Sempre vai ser sobre você.


domingo, 15 de outubro de 2017 0 comentários

Os 3 trancos

Estamos vivendo num mundo ao qual a mudança está tão potente que não dá pra afirmar como será a economia ou a política ou o que vai passar na tv ou todas estas "desnecessidades" existentes para quem anda de moto e ainda quer uma vida simples. Meu pai me ensinou a aguentar 3 trancos na vida: Um porre antes de um dia de trabalho, dois coices coice de espingarda com uma mão só e três murros bem dados na cara. Mas não me disse que uma garota poderia ser a razão de um (ou mais) motivo destes 3 trancos. Sobre Elas, eu não vou falar hoje. Até porque tanto o mundo quanto Elas mudam (ou não) rápido demais.

Quando tomava um café num desses sábados em que você já está vestido para pegar a estrada e o tempo começa a fechar mas você nem serra os olhos (como o Clint cerraria) porque já tomou tanta chuva nessa vida que é só um dia qualquer... passou no rádio velho que estava na prateleira de graxa que há uma expectativa de que a gasolina acabe em 30 anos... na época eu nem tinha um fio grisalho... Ali escorado com o ombro no umbral eu adicionei uma nota mental à notícia que as motos americanas já custavam os dois rins e agora a gasolina agora vai começar a ficar mais e mais caro, até que seja um bem de poucos, dos bacanas... e aí usar um carro (econômico) vai ser um caso de extrema necessidade e apenas nos fins de semana... bebi o café... ele estava menos amargo que as notícias.

Em seguida o rádio disse (quase como que uma venda casada) que algumas marcas (dentre elas a mais famosa) já havia iniciado os protótipos elétricos... ELÉTRICOS! - cuspi o café todo na varanda - e então minha mente se lembrou da letra de Born to be wild onde pela primeira vez utilizaram a expressão "heavy metal thunder". Expressão que serviu para um gênero de rock até hoje e também para o SOM dos motores da Harley Davidson... motores cujo som são patenteados! agora seriam substituídos por silenciosas turbinas... imagine um trem.... com 8 ou 10 caras de moto... e aquele silêncio insuportável... O "Vrrrruuuummm" perderia para sempre o seu "r" deixando espaço para um monossilábico "vuuuuuuum" tsk... eu devo estar pensando besteira demais... dissipei os pensamentos como alguém que dispersa pequenas nuvens em volta da cabeça, peguei o capacete e segui para me encontrar com outras pessoas.

O ponto de encontro era um bar simples na beira da estrada tinha gente de tudo quanto é clube e seguimento. até que apareceu um pequeno clube que eu já tinha ouvido falar e seus feitos eram memoráveis. claro que neste meio nem todos feitos memoráveis são justos ou certos, mas de uma maneira particular os caras "faziam por onde para manter a tradição..." exceto pelo fato das Bigtrails...

Vestidos como era a tradição, conversando e se comportando como era a tradição, bebendo como era a tradição aqueles caras me instigaram desde quando chegaram montados naqueles "camelos" daquela altura... conversamos bem até que encontrei uma brecha para perguntar sem ser desrespeitoso sobre as grandonas paradas lado a lado lá perto do posto. ao que me respondeu...

- cara... os tempos estão mudando, não se dá mais "baile na lei" com arrancadas nas auto estradas... carros estão mais potentes mas ainda não são todos que conseguem passar num ou em outro matagal,  e outra... nossa cabana (se referia a sede) garante a privacidade suficiente mesmo em dias de chuva...

O papo se estendeu, mas foi nessa primeira conversa que eu tive que aceitar que o futuro não será um lugar de tradições físicas, os tanques de gota, os motores barulhentos, a gasolina... talvez até as springers virarão lendas numa parede de sede de clube... a tradição não estão nestas coisas, mas como você as ensina e as passa.... customizaremos estas turbinas debaixo das motos até elas urrarem, haverão motos custom bigtrail, gasolina? biodiesel? Bateria recarregável? não fazia a mínima ideia do que seria o futuro.. mas os 3 trancos continuarão sendo ensinados de irmão pra irmão, de pai pra filho, de tio para sobrinho...

O papo acabou e os caras pegaram a estrada convencional mais cedo. logo mais tarde cheguei em casa e guardei a moto, na prateleira de graxa além do rádio havia um gancho com um galão com gasolina pela metade. olhei para aquela coisa como se estivesse me despedindo do ultimo cantil antes de adentrar o Saara. 

e mesmo com tudo mudando e mudando tanto, ainda dá pra tentar manter a tradição. 

pelo menos

por hora.

sábado, 6 de junho de 2015 0 comentários

Encontros da Madrugada

Há sempre várias coisas que podemos aprender quando andamos de moto. E há muito mais coisas que aprendemos quando andamos de moto... e dentro de um club.

Uma delas, é que se o clube não tiver uma sede, horários, disciplina (como os grandes tem hoje), o bar é como a igreja do clube. Não tem um sino em cima do salão principal, mas a hora que ele abre é a hora em que você deve estar la dentro e a hora que ele fecha... bem... a hora que ele fecha é a hora que você deve ser colocado pra fora contra sua própria vontade. sabe filho? no meu tempo era assim...

humpf... no meu tempo.

A verdade é que eu já era um deles. Exatamente como ainda sou, mas havia um pouco a mais de curiosidade em mim, curiosidade sabe? aquelas que não te deixa dormir enquanto você fica olhando pra cima e vigia o ventilador girar lentamente como uma hipinose... poisé.

Sobre o clube, eu já sabia como funcionava. Sobre a moto? o que dizer de uma máquina que quando eu peguei estava separada em 4 caixas de tamanhos diferentes e tive que apertar peça por peça? Mas eu ainda tinha curiosidade como eram as estradas! as mais longas, as mais próximas nas mais diferentes condições... Andei em quase todas aqui por perto: debaixo do Sol... Chuva... Neve... Dia e por fim a noite.

Sempre há um bom receio quando se pilota a noite... não dá pra prever muita coisa nem a mente filosofa tão longe. Muitas vezes pilotar a noite é mais um dever do que um prazer. Mas há quem tope isso.

Certa vez, após o fim da igreja ... exatamente... o bar. Meus irmãos se assustaram ao não me ver tão derrubado como o de costume. Eu estava "normal" pra mim e estranho para eles. A bota estava amarrada firme, a jaqueta e o colete estavam fechados no longo ziper de metal. o capacete estava fixado e fivelado na cabeça, eu também estava com um óculos com aquelas lentes amarelas como as que eu usava para soldar peças na garagem e também estava de luvas.

Na saída do bar, muitos me perguntavam se eu ia voltar para a casa da minha mãe... (que eram há algumas centenas de milhas daqui). Mas eu só os cumprimentei com a cabeça. Antes que eu saísse da área do bar um dos meus grandes amigos que hoje eu só posso ter saudades dele me deu esta bandana ao qual guardo com muito carinho até hoje. Parecia que ele sabia o que eu buscava na estrada durante a madrugada e me disse: "pega aí! assim seu nariz não vai escorrer". 

A princípio eu pensei que fosse por uma briga, mas o cara falou sério. O frio cortante da madrugada a dentro faz qualquer respiração sentir a sensação de inalar álcool  na frente do ventilador.  passei a velha bandana com cheiro de gasolina na frente do rosto e segui estrada. não era muito longe coisa de 60 no máximo 80 km... Até que decidi voltar.

Antes disso, havia uma curva que eu sabia que durante o dia era muito boa de se fazer e porque não faze-la agora? sempre havia uma vista muito bonita vale abaixo então também decidi ver como era de noite. Na realidade a frustração veio logo após a curva que pra completar a noite fria não se via nada... 

...não há horizonte quando a noite não tem luar...

vai-se o espetáculo da natureza, fica o refúgio dos homens! eEs que eu nunca tinha percebido ali, logo após a larga curva e o grande vale é que havia um café... destes que ficam aberto na madrugada toda. já que eu não estava com tempo marcado pra nada, resolvi parar ali.

Posto com duas bombas, gasolina e diesel fechadas com uma capa cobrindo as duas. luzes do pátio desligadas, duas portinhas de madeira vermelha com pequenos quadrados de viro que estavam entreabertas e um neon com mau-contato indicavam a entrada do café.

entrei.

A sineta tocou e eu olhei para ela. Definitivamente não havia ninguém dentro do café... Apenas eu e um rapaz bastante desengonçado de uns 19 anos e frio... muito frio. 

O garoto usava um quepe como daqueles da marinha e sem que eu dissesse nada retirou a grande caneca de café de uma trempe muito quente e serviu uma xícara de café. Olhei pra ele, olhei para o café.... olhei pra ele... o coitado começou a tremer hehehe 

Engasgando me disse: "nós não temos cervejas, senhor".

Dei um passo perto do balcão retirei a bandana do rosto e peguei a xícara.  me sentei naqueles bancos que ficam um de frente pro outro próximo as persianas e me lembrei que fazia um bom tempo que eu não sabia o que era tomar café... muito menos a essa hora da madrugada... viajei ali uns instantes...

Não demorou muito e um barulho de muitas motos tomou conta do lugar. Não eram motos como a minha, mas o pensamento de estar no mínimo ferrado por estar sem um companheiro de clube me tomou a cabeça na hora. A faca estava ali sempre na bota, mas não faria diferença contra os 12 ou 14 faróis que acabaram de aparecer bem na minha cara.

Não havia nada pra esconder, tão pouco motivos para se esconder, afinal eu sou o que sou, horas. Um membro do meu clube. Se eu caísse ali não sobraria nada daquele café na outra semana. Foi então que eu vi o rosto do garoto que me servira café... o moleque estava contente e empolgado... Deu a volta por trás do balcão e com um ou dois trotes chegou até a porta com o quepe na mão. como quem sente um alívio pela companhia dos outros.... 

Olhei para um lado, olhei para o outro (que era a janela) e haviam mais pessoas do que as motos...  a maioria estava com garupas... namoradas e sei lá quem mais. Entraram no café fazendo algazarra....
mas não como a nossa.... Eles apenas batiam no balcão, falavam alto, e sobiam de cavalinho nos outros tudo sem mexer no impecável cabelo com aqueles topetes e aquelas costeletas. As garotas completamente encapotadas entravam raspando o jeans das calças entre as pernas e friccionando os dedos da luva até o balcão e pegavam uma xícara de café.

Durou alguns instantes até que um do bando começasse a cutucar o outro e olhar pra mim. Por um simples rabo de olho, via-se um mendigo barbudo e descabelado, mas um segundo olhar dava pra perceber os anéis e é claro... Minhas cores...

A conversa baixou um pouco o tom, mas continuou naquela diversão jovem. Terminei o café, me levantei e antes que eu me dirigisse ao garoto do quepe ele apenas espalmou a mão acenando negativamente enquanto abaixava a cabeça levemente com os olhos fechados... entendi. o café era por conta da casa. 

Na saída é que fui entender o que estava se passando, os caras estavam todos de "café-racers" e lá estava eu completamente fora do "tom". sabia que não era a minha área então subi na moto e alguns adolescentes vieram falar comigo.

Conversaram bem comigo. Respeito é uma coisa que os caras tinham. Definitivamente eu jamais esperaria isso deles. Respondi algumas perguntas, ri pra uma ou outra garota que estavam com os carinhas e então vim embora.... descobri mais uma vez que quando a festa para uns está acabando como foi o caso do bar, para eles, a noite só estava começando...

e sem saber pela primeira vez eu fiz um café racer! hehehe
sábado, 30 de maio de 2015 0 comentários

Um irmão maior

Durante muito tempo da minha infância fui advertido pelos meus pais dentro daquela gaiola que eles chamam de carro, para tomar muito cuidado com caminhoneiros. Eles sempre diziam que eles não tem noção de espaço, não deixam os outros passarem ou mesmo não tem o mínimo respeito pelos outros automóveis. Completavam sempre esses alertas com a ideia de que "eles estão sempre na estrada e acham que são donos delas". Exatamente como os táxis dentro de uma cidade (mas aí já é outra história).

Bom, mantive esse consenso familiar comigo durante anos, e conforme eles se passavam eu progredia em cilindradas das motos. Claro que nunca passando muito perto de um caminhão. "aquelas coisas balançam muito o vento" é o que se ouve em um ou outro posto sobre o vácuo que eles criam ao correrem. Mas um belo dia chegou a minha vez de testar tudo isso.

Na verdade, existe uma época da vida em que tudo que te falaram que era ruim, não compensava e você não viu exemplos destas consequências, vão te levar a executar as mesmas cosias. Uma delas era desafiar um caminhão, daqueles grandes! Porque quando se está na estrada não se desafia a pessoa dentro do veículo, o desafio transcende. toma grandes proporções. 

Então lá estava eu fazendo um tiro de 500km numa sexta feira quando me deparei com um daqueles grandes! devia ser um bi-trem de baú fechado. daqueles que puxam todo o ar e ainda balançam a cabeça com lapadas de vento caso você esteja atrás. A verdade é que as primeiras duas horas de viagem fomos "conversando" (uma sequência de ultrapassagem hora respeitosa, outrora desrespeitosa que mantinha um contato visual via retrovisor). setas, freios, acenos são usados na estrada constantemente e torna uma conversa interessante quando o único barulho que tem são os ventos e os motores.

O caminhão se adiantou muito e alguns quilômetros adiante estava ele parado num posto fiscal. A "bola de carne" que dirigia o caminhão parecia cansado pela árdua jornada de trabalho e com um maço de notas fiscais apresentava justificativas para o policial que mandara encostar.

passei por eles. 

O caminhoneiro fez mais um gesto com a cabeça e eu o cumprimentei de volta. o policial achou que era pra ele... coitado.
viagem adiante, é a minha vez de parar. Não que eu quisesse, ou que eu pudesse, mas quando a máquina é quem manda, é ela que decide arbitrariamente quando e onde parar. e foi na estrada debaixo do sol escaldante depois do almoço. numa "retona"... distante de uma longa subida que se via no horizonte.

O Problema era simples, Velas de ignição. sempre que as mesmas falham, um antigo mecânico me ensinou oque era só quebrar a louça delas que daria para chegar no local. daria mesmo se a única chave que eu não coloquei dentro da bolsa de ferramentas fosse a chave de vela.

Tentei simular com uma ou outra chave mas no fim eu sabia que eu não conseguiria, que a rosca da vela seria danificada ou mesmo do motor. e mesmo assim ainda tentava... já se passavam alguns minutos. não seria necessário nenhuma hora para que eu já estivesse completamente queimado do sol ou mesmo desidratado. os couros já estavam no chão e eu ali tentando resolver a tal bagaça que me impedia de chegar ao meu destino. quando de repente apontou na estrada o Caminhão. de longe parecia uma cena de mad max... ele lá, no meio do nada e a vasta poeira vindo atrás dele naquele sol.

Eu sabia que seria mais um comprimento do tipo: "nos vemos na próxima parada" ou em último caso um "coma poeira, seu monte de merda!" mas não... aquele dinossauro reduziu e parou bem no acostamento (já que eu estava fora da área do acostamento só por questão de segurança mesmo). fazendo uma sombra instantaneamente refrescante para mim. o caminhão ficou parado e ninguém desceu. é claro que eu também pensei no pior, coloquei a mão para a parte de trás da cinta. não havia ninguém olhando no retrovisor, por isso continuei achando estranho. 

em seguida ouvi um som de muitos metais chacoalhando juntos, o cara deu a volta por tras do caminhão me surpreendendo duplamente, uma porque eu estava de frente para a parte da frente do caminhão, e outra porque ele estava com uma caixa de ferramentas muito grande.

aproximou-se de mim dando um bom fim de tarde e disse que talvez eu precisaria de algo ali dentro. a caixa de ferramentas era somente ferramentas de moto porque numa conversa depois descobri que o carregamento era de uma dessas concessionárias japonesas e tinha muita coisa. 

definitivamente não foi uma conversa longa ou mesmo uma situação que cause uma lição de moral, não quis e nem quero saber do cara. só pude levar pra frente que nem tudo o que as pessoas falam é verdade como foi o caso dos meus pais na visão de vida que eles tinham.

até porque dias depois fui me tocar que o cara resolveu parar exatamente do lado onde eu estava apenas para fazer uma sombra para mim. De la pra cá não vi o caminhão (ou o caminhoneiro) como um grande problema da estrada, senão como um irmão maior. com todas as características que irmão tem... marrento, egocêntrico, "valentão" mas com a consciência que estamos todos na mesma família. 

A estrada.

domingo, 15 de junho de 2014 0 comentários

Iniciação

Há sempre coisas boas na minha cabeça quando chove. Uma delas, é que a chuva é passageira, não importa a força que caia. Quando esperamos num posto é porque é quase que impossível enxergar um palmo diate do nariz e aproveitamos pra completar o tanque, tomar uma bebida quente ou mesmo acertar algumas coisas nas motos. É nesta hora que eu fico olhando para o lado de fora... Na estrada... Com pessoas com pressa, sem pressa, acelerando só porque acha que a chuva acabou e a estrada está pronta para uns quilômetros por hora a mais... Doce ilusão.

Mas também, por um breve momento (daqueles que você está olhando para um lugar e tudo fica embaçado e você apenas perde o foco) eu me lembro dos dias em que estava com meu velho... Tempos antes dele surtar e jogar tudo pro alto partindo em direção de outras estradas maiores. Tempos ao qual ele sempre me dizia pra não andar exatamente com quem eu ando hoje, pra não fazer exatamente o que eu faço hoje, para ser um homem sério, bem sucedido (que para ele significava ganhar dinheiro, muito dinheiro), pra ser uma pessoa em casa, uma pessoa no trabalho e uma pessoa na rua... Em fim, que bom que ele se foi. Hoje, a única coisa que sobrou dele, foi a antiga "quinhentas" toda feita em ferro, mais pesada do que duas motos "quinhentas" de hoje. Mas nada muito mais ou menos perecível do que suas próprias palavas. Foi através dele que eu tive as maiores lições de vida (só que ao contrário). Foi na tentativa de não ser ele que eu consegui ser o que sou. Mesmo que na verdade não importe muito, ou que eu venha a ter o mesmo fim que ele e todo o resto da humanidade.

Mas também pensando no que ele sempre falou pra mim, serviu não só de antídoto para o seu comportamento como também pra aprender a enxergar pessoas como ele. Sabe? pessoas que são uma coisa em cada lugar e isso com certeza complica as coisas quando se encontra com essas pessoas em mais de um lugar. Elas não sabem reagir com um padrão só e por isso travam, cometem deslises... alguns bem desastrosos.

Foi numa dessas tentativas de ser sempre a mesma pessoa, a vida toda, que eles me encontraram. Exatamente na saída de uma igreja (como comentei num outro relato) que eles me viram ser o mesmo homem, no bar, no cemitério e também na igreja. Não demorou muito para que eles viessem até mim, puxassem papo, pagassem uma cerveja e quando eu me dei por conta estávamos socando um outro grupo por conta de um freezer cheio das mesmas cervejas quentes de sempre. Na semana seguinte eles me visitaram, sem querer entrar em casa, apenas paravam na porta. Sua mãe olhava pela persiana e se deixava ser percebida como quem "tomava conta do seu marido". O pessoal não ligava, acendia um cigarro e la só me via balançar a cabeça positivamente para eles e dar uma rápida corrida no gramado até a garagem. Em instantes já estava eu na antiga quinhentas, barulhenta, atrás dos caras.

Tempos depois já não precisavam vir aqui me chamar, eu sentia a hora de pegar a moto e ir até eles. Sua mãe nunca disse que eu estava estranho ou coisas do gênero (aquelas que sua mãe falaria pra você na adolescência), mas eu sabia que não era o mesmo "eu". eu estava mas livre, despojado e completamente adaptável a qualquer ambiente. Andar com eles me fez evoluir.

Sempre achei que os caras tinham uma forma de se portar, de se vestir completamente diferente dos outros, e era isso que me faltava;

Nunca preocupei com minhas roupas, bons modos tradicionais (embora sempre considerei a palavra respeito como algo perdido ha muito tempo e digno de se buscar/encontrar), tão pouco me adequei aos padrões de vida normais. Mas sabia que havia algo a mais nisso.

Bom, o tempo passou, uma tatuagem aqui (sobre algo que eu nem sei de tão doido que estava), um machucado ali (daqueles que a gente se lembra depois da ressaca e de ver a moto toda empenada). A barba e os cabelos maiores, alguns anéis (que marcaram os eventos/viagens em que eu estava) até que um dia me chamaram lá "casa" deles. disseram que tinham "algo" pra mim.

Cheguei lá e eles me mandaram sentar à mesa, tiraram de um saco de plástico preto um colete, nas costas, o mesmo símbolo de todos que ali estavam sentados. Me reconheceram.

Noite de festa,madrugada a dentro, cerveja, drogas, mulheres mas eu tentei me manter são e limpo. voltei pra casa, ansioso para me ver. Precisava ver apenas um detalhe.

Guardei a moto na garagem. Casa toda desligada. sua mãe já estava dormindo. Passei pelo quarto, fui no como dos fundos, onde ficavam as tralhas da sua avó. Fui onde o espelho era grande. Eu queria me ver. na minha cabeça eu era apenas um cara normal andando com "aquele grupo". Pensava no que eu devia colocar a mais para me tornar "um deles". 

Liguei a luz, me vi por inteiro no espelho. tirei o colete por uns instantes, não consegui imaginar o que colocar. coloquei o colete novamente. quando me percebi,

Eu já estava completo. eu já era um deles! sem o colete, e agora com o colete.

Conhece-los foi apenas a transição do meu EU que sempre andou só e perdido para agora andar com iguais, irmãos e em família.

"A diferença entre a sua aparência e sua vida num MC tem que se limitar apenas ao colete! se você precisa colocar mais coisas além do colete. você tá se fantasiando. Em resumo, pode colocar coisas "a mais", Mas, transparência tem muito a ver com humildade, respeito e dizer estritamente sobre o que é você de verdade." - RWPP



sábado, 18 de janeiro de 2014 0 comentários

O Reverendo

Do tempo em que eu vivi com a sua mãe, foram anos de muita loucura. Mas com certeza não era a loucura que eu sempre quis que ela vivesse comigo. Na verdade era a loucura de ter casado com uma mulher que não gostava de motos, nem do que eu usava, nem do que eu vestia, nem do que eu acreditava. Mas eu não vou denegrir a imagem da mulher que me deu uma pessoa tão especial quanto você, não é?

pois bem.

Mas ainda sobre as loucuras dessa mulher, tinha uma em peculiar que sempre me deixava muito puto. que era a maldita insistência dela em eu visitar (para quem sabe assim um dia, frequentar) a igreja em que ela ia religiosamente todo o domingo.

então era assim:

Eu acordava cedo, abria uma cerveja, ligava o som baixo lá na garagem e ia mexer na moto. Mais ou menos uma hora depois que eu acordei, ela acordava, tomava um banho, colocava aqueles vestidos floridos que você sabe de qual eu estou falando, preparava o próprio café, pegava sua bíblia e ia até a garagem para me avisar que estava indo à igreja e de quebra me convidar.

É claro que eu sempre disse não, e um não abarrotado de motivos pessoais, lógicos, ideológicos e principalmente sociais.
ela apenas fazia uma cara triste, e eu fingia que não estava vendo por entre as aletas do motor. 

Então se quisesse ter pelo menos meio dia feliz, era melhor que a moto estivesse funcionando e abastecida, pois eu teria que pegar a estrada e fazer um "rango" na beira da rodovia mesmo. pois se eu ficasse para o almoço sua velha faria aquele macarrão xoxo, empanzinado de murmúrios contra mim,  que de fato deixaram o macarrão ainda mais azedo do que estava. 

e assim seguiu a vida de mais de uma década e que ainda bem que não estamos juntos.

Mas certo dia, resolvi dar um susto na velha.

acordei cedo, tomei um banho e desci até a garagem. lá me assentei no sofá estourado que fica perto das chaves em "L" e fiquei esperando a cara da sua mãe.

Quando ela apareceu na garagem, com aquele vestido florido e me viu de calça social, sapatos, cinto, camisa de botões (fechados). tinha certeza que a velha iria dar um piripaque. e descrente ainda do que viu, me perguntou:

- você vai sair?
- Vou
- Vai aonde?
- Na Igreja.
- Sério?
- uhum...

com um amável e discreto sorriso no rosto, ela deu meia volta em seus calcanhares e pegou do lado da porta o chaveiro da caminhonete (porque ela não sabia dirigir e sempre pegou carona com algum outro membro da igreja) e trouxe-a para mim.

Percorremos as quadras em silêncio. eu sabia que a velha estava bastante empolgada (e ao mesmo tempo com medo e receio) mas escolhera não falar nada para não me "espantar".

chegamos na igreja, ela desceu do caminhonete e eu fui estaciona-la. Ela achou que era apenas um truque para que eu fosse embora, mas eu não ia fazer isso. mesmo para uma coisa que eu não gosto e não queria também tinha que cumprir a minha palavra.

Entramos, sentamos bem no fundo, próximo a porta. Talvez ela escolheu este lugar para que eu não ficasse mais acanhado, mas eu penso que é um ponto bom para ir fumar lá fora.

os "irmãos" começaram o culto pedindo para Deus falar com eles, e como essa parte era "de graça" não levei muito a sério e ali sentado e olhando pra cima (ora para baixo) disse, então pode falar comigo também.

não meu filho... isso não é um testemunho de conversão! (risos)

o culto foi longo demais da conta pra mim (deve ser porque quando se está fazendo algo que não se gosta...). mas enquanto O Reverendo emitia um discurso mais difícil de compreender as letrinhas pequenas das bulas de remédio, eu ficava ali observando as pessoas. e tinha MUITA gente que eu conhecia, muito vigarista, patife, salafrário, filho da puta, tanto quanto eu e ali estava... pagando de bonzinho, fazendo o serviço de Deus do jeito que tinha que ser. A minha vontade era sair por cima dos bancos e socar a cara do filho da puta que sempre ficava falando sobre bla blá blá conjugal mas lá fora não tirava o olho do rabo da vizinha.

e mais um monte de outras hipocrisias.

A reunião acabou e minha mulher se levantou primeiro. em seguida fomos ao carro, ela não disse uma palavra, mas o sorriso dela já dizia tudo. ao chegar em casa, estacionei a caminhonete na porta de casa e ela me disse um - Muito obrigado por me acompanhar - e fechou a porta e caminhou mais rápido para a porta. a cena parecia que a gente ainda era namorado e ela estava parando na casa dela. 

bom, fui para a garagem para adiantar o serviço na moto, peguei o macacão, vesti por cima da roupa e fui resolver os meus problemas.  enquanto apertava uma porca aqui, lubrificava uma corrente ali. percebei que embora parecesse impossível havia aprendido algo na tal "Casa" de Deus. 

Aprendi que os mesmos comportamentos que eu vi se assemelham com um Moto Clube. Que há muitos que falam que andam muito, mas esquivam-se de fazer uma ou outra viagem; que muitos utilizam o colete apenas quando vão à sede (e você pode comparar o colete com a bíblia agora). que muita gente conta vantagem lá dentro e se porta de uma forma que na verdade, lá fora são outras coisas. 

então, teria que deixar claro que é fácil ser membro de um Moto-clube só dentro da sede, ou somente perto dos outro membros do clube. agora quero ver mostrar serviço lá! 

todo santo domingo no nosso templo, que é a estrada.
através do nosso santo, que é a nossa moto.
seguindo fiel a nossa religião, que é a viagem!

Terminei os meus trabalhos com a moto e sua mãe me apareceu na porta, com um avental por cima do vestido florido e disse: o almoço está pronto. você vem comer.

e por fim tinha esquecido o quão é diferente comer a comida de alguém que está de bom humor!
 
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