sábado, 6 de junho de 2015 0 comentários

Encontros da Madrugada

Há sempre várias coisas que podemos aprender quando andamos de moto. E há muito mais coisas que aprendemos quando andamos de moto... e dentro de um club.

Uma delas, é que se o clube não tiver uma sede, horários, disciplina (como os grandes tem hoje), o bar é como a igreja do clube. Não tem um sino em cima do salão principal, mas a hora que ele abre é a hora em que você deve estar la dentro e a hora que ele fecha... bem... a hora que ele fecha é a hora que você deve ser colocado pra fora contra sua própria vontade. sabe filho? no meu tempo era assim...

humpf... no meu tempo.

A verdade é que eu já era um deles. Exatamente como ainda sou, mas havia um pouco a mais de curiosidade em mim, curiosidade sabe? aquelas que não te deixa dormir enquanto você fica olhando pra cima e vigia o ventilador girar lentamente como uma hipinose... poisé.

Sobre o clube, eu já sabia como funcionava. Sobre a moto? o que dizer de uma máquina que quando eu peguei estava separada em 4 caixas de tamanhos diferentes e tive que apertar peça por peça? Mas eu ainda tinha curiosidade como eram as estradas! as mais longas, as mais próximas nas mais diferentes condições... Andei em quase todas aqui por perto: debaixo do Sol... Chuva... Neve... Dia e por fim a noite.

Sempre há um bom receio quando se pilota a noite... não dá pra prever muita coisa nem a mente filosofa tão longe. Muitas vezes pilotar a noite é mais um dever do que um prazer. Mas há quem tope isso.

Certa vez, após o fim da igreja ... exatamente... o bar. Meus irmãos se assustaram ao não me ver tão derrubado como o de costume. Eu estava "normal" pra mim e estranho para eles. A bota estava amarrada firme, a jaqueta e o colete estavam fechados no longo ziper de metal. o capacete estava fixado e fivelado na cabeça, eu também estava com um óculos com aquelas lentes amarelas como as que eu usava para soldar peças na garagem e também estava de luvas.

Na saída do bar, muitos me perguntavam se eu ia voltar para a casa da minha mãe... (que eram há algumas centenas de milhas daqui). Mas eu só os cumprimentei com a cabeça. Antes que eu saísse da área do bar um dos meus grandes amigos que hoje eu só posso ter saudades dele me deu esta bandana ao qual guardo com muito carinho até hoje. Parecia que ele sabia o que eu buscava na estrada durante a madrugada e me disse: "pega aí! assim seu nariz não vai escorrer". 

A princípio eu pensei que fosse por uma briga, mas o cara falou sério. O frio cortante da madrugada a dentro faz qualquer respiração sentir a sensação de inalar álcool  na frente do ventilador.  passei a velha bandana com cheiro de gasolina na frente do rosto e segui estrada. não era muito longe coisa de 60 no máximo 80 km... Até que decidi voltar.

Antes disso, havia uma curva que eu sabia que durante o dia era muito boa de se fazer e porque não faze-la agora? sempre havia uma vista muito bonita vale abaixo então também decidi ver como era de noite. Na realidade a frustração veio logo após a curva que pra completar a noite fria não se via nada... 

...não há horizonte quando a noite não tem luar...

vai-se o espetáculo da natureza, fica o refúgio dos homens! eEs que eu nunca tinha percebido ali, logo após a larga curva e o grande vale é que havia um café... destes que ficam aberto na madrugada toda. já que eu não estava com tempo marcado pra nada, resolvi parar ali.

Posto com duas bombas, gasolina e diesel fechadas com uma capa cobrindo as duas. luzes do pátio desligadas, duas portinhas de madeira vermelha com pequenos quadrados de viro que estavam entreabertas e um neon com mau-contato indicavam a entrada do café.

entrei.

A sineta tocou e eu olhei para ela. Definitivamente não havia ninguém dentro do café... Apenas eu e um rapaz bastante desengonçado de uns 19 anos e frio... muito frio. 

O garoto usava um quepe como daqueles da marinha e sem que eu dissesse nada retirou a grande caneca de café de uma trempe muito quente e serviu uma xícara de café. Olhei pra ele, olhei para o café.... olhei pra ele... o coitado começou a tremer hehehe 

Engasgando me disse: "nós não temos cervejas, senhor".

Dei um passo perto do balcão retirei a bandana do rosto e peguei a xícara.  me sentei naqueles bancos que ficam um de frente pro outro próximo as persianas e me lembrei que fazia um bom tempo que eu não sabia o que era tomar café... muito menos a essa hora da madrugada... viajei ali uns instantes...

Não demorou muito e um barulho de muitas motos tomou conta do lugar. Não eram motos como a minha, mas o pensamento de estar no mínimo ferrado por estar sem um companheiro de clube me tomou a cabeça na hora. A faca estava ali sempre na bota, mas não faria diferença contra os 12 ou 14 faróis que acabaram de aparecer bem na minha cara.

Não havia nada pra esconder, tão pouco motivos para se esconder, afinal eu sou o que sou, horas. Um membro do meu clube. Se eu caísse ali não sobraria nada daquele café na outra semana. Foi então que eu vi o rosto do garoto que me servira café... o moleque estava contente e empolgado... Deu a volta por trás do balcão e com um ou dois trotes chegou até a porta com o quepe na mão. como quem sente um alívio pela companhia dos outros.... 

Olhei para um lado, olhei para o outro (que era a janela) e haviam mais pessoas do que as motos...  a maioria estava com garupas... namoradas e sei lá quem mais. Entraram no café fazendo algazarra....
mas não como a nossa.... Eles apenas batiam no balcão, falavam alto, e sobiam de cavalinho nos outros tudo sem mexer no impecável cabelo com aqueles topetes e aquelas costeletas. As garotas completamente encapotadas entravam raspando o jeans das calças entre as pernas e friccionando os dedos da luva até o balcão e pegavam uma xícara de café.

Durou alguns instantes até que um do bando começasse a cutucar o outro e olhar pra mim. Por um simples rabo de olho, via-se um mendigo barbudo e descabelado, mas um segundo olhar dava pra perceber os anéis e é claro... Minhas cores...

A conversa baixou um pouco o tom, mas continuou naquela diversão jovem. Terminei o café, me levantei e antes que eu me dirigisse ao garoto do quepe ele apenas espalmou a mão acenando negativamente enquanto abaixava a cabeça levemente com os olhos fechados... entendi. o café era por conta da casa. 

Na saída é que fui entender o que estava se passando, os caras estavam todos de "café-racers" e lá estava eu completamente fora do "tom". sabia que não era a minha área então subi na moto e alguns adolescentes vieram falar comigo.

Conversaram bem comigo. Respeito é uma coisa que os caras tinham. Definitivamente eu jamais esperaria isso deles. Respondi algumas perguntas, ri pra uma ou outra garota que estavam com os carinhas e então vim embora.... descobri mais uma vez que quando a festa para uns está acabando como foi o caso do bar, para eles, a noite só estava começando...

e sem saber pela primeira vez eu fiz um café racer! hehehe
sábado, 30 de maio de 2015 0 comentários

Um irmão maior

Durante muito tempo da minha infância fui advertido pelos meus pais dentro daquela gaiola que eles chamam de carro, para tomar muito cuidado com caminhoneiros. Eles sempre diziam que eles não tem noção de espaço, não deixam os outros passarem ou mesmo não tem o mínimo respeito pelos outros automóveis. Completavam sempre esses alertas com a ideia de que "eles estão sempre na estrada e acham que são donos delas". Exatamente como os táxis dentro de uma cidade (mas aí já é outra história).

Bom, mantive esse consenso familiar comigo durante anos, e conforme eles se passavam eu progredia em cilindradas das motos. Claro que nunca passando muito perto de um caminhão. "aquelas coisas balançam muito o vento" é o que se ouve em um ou outro posto sobre o vácuo que eles criam ao correrem. Mas um belo dia chegou a minha vez de testar tudo isso.

Na verdade, existe uma época da vida em que tudo que te falaram que era ruim, não compensava e você não viu exemplos destas consequências, vão te levar a executar as mesmas cosias. Uma delas era desafiar um caminhão, daqueles grandes! Porque quando se está na estrada não se desafia a pessoa dentro do veículo, o desafio transcende. toma grandes proporções. 

Então lá estava eu fazendo um tiro de 500km numa sexta feira quando me deparei com um daqueles grandes! devia ser um bi-trem de baú fechado. daqueles que puxam todo o ar e ainda balançam a cabeça com lapadas de vento caso você esteja atrás. A verdade é que as primeiras duas horas de viagem fomos "conversando" (uma sequência de ultrapassagem hora respeitosa, outrora desrespeitosa que mantinha um contato visual via retrovisor). setas, freios, acenos são usados na estrada constantemente e torna uma conversa interessante quando o único barulho que tem são os ventos e os motores.

O caminhão se adiantou muito e alguns quilômetros adiante estava ele parado num posto fiscal. A "bola de carne" que dirigia o caminhão parecia cansado pela árdua jornada de trabalho e com um maço de notas fiscais apresentava justificativas para o policial que mandara encostar.

passei por eles. 

O caminhoneiro fez mais um gesto com a cabeça e eu o cumprimentei de volta. o policial achou que era pra ele... coitado.
viagem adiante, é a minha vez de parar. Não que eu quisesse, ou que eu pudesse, mas quando a máquina é quem manda, é ela que decide arbitrariamente quando e onde parar. e foi na estrada debaixo do sol escaldante depois do almoço. numa "retona"... distante de uma longa subida que se via no horizonte.

O Problema era simples, Velas de ignição. sempre que as mesmas falham, um antigo mecânico me ensinou oque era só quebrar a louça delas que daria para chegar no local. daria mesmo se a única chave que eu não coloquei dentro da bolsa de ferramentas fosse a chave de vela.

Tentei simular com uma ou outra chave mas no fim eu sabia que eu não conseguiria, que a rosca da vela seria danificada ou mesmo do motor. e mesmo assim ainda tentava... já se passavam alguns minutos. não seria necessário nenhuma hora para que eu já estivesse completamente queimado do sol ou mesmo desidratado. os couros já estavam no chão e eu ali tentando resolver a tal bagaça que me impedia de chegar ao meu destino. quando de repente apontou na estrada o Caminhão. de longe parecia uma cena de mad max... ele lá, no meio do nada e a vasta poeira vindo atrás dele naquele sol.

Eu sabia que seria mais um comprimento do tipo: "nos vemos na próxima parada" ou em último caso um "coma poeira, seu monte de merda!" mas não... aquele dinossauro reduziu e parou bem no acostamento (já que eu estava fora da área do acostamento só por questão de segurança mesmo). fazendo uma sombra instantaneamente refrescante para mim. o caminhão ficou parado e ninguém desceu. é claro que eu também pensei no pior, coloquei a mão para a parte de trás da cinta. não havia ninguém olhando no retrovisor, por isso continuei achando estranho. 

em seguida ouvi um som de muitos metais chacoalhando juntos, o cara deu a volta por tras do caminhão me surpreendendo duplamente, uma porque eu estava de frente para a parte da frente do caminhão, e outra porque ele estava com uma caixa de ferramentas muito grande.

aproximou-se de mim dando um bom fim de tarde e disse que talvez eu precisaria de algo ali dentro. a caixa de ferramentas era somente ferramentas de moto porque numa conversa depois descobri que o carregamento era de uma dessas concessionárias japonesas e tinha muita coisa. 

definitivamente não foi uma conversa longa ou mesmo uma situação que cause uma lição de moral, não quis e nem quero saber do cara. só pude levar pra frente que nem tudo o que as pessoas falam é verdade como foi o caso dos meus pais na visão de vida que eles tinham.

até porque dias depois fui me tocar que o cara resolveu parar exatamente do lado onde eu estava apenas para fazer uma sombra para mim. De la pra cá não vi o caminhão (ou o caminhoneiro) como um grande problema da estrada, senão como um irmão maior. com todas as características que irmão tem... marrento, egocêntrico, "valentão" mas com a consciência que estamos todos na mesma família. 

A estrada.

 
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