Há sempre coisas boas na minha cabeça quando chove. Uma delas, é que a chuva é passageira, não importa a força que caia. Quando esperamos num posto é porque é quase que impossível enxergar um palmo diate do nariz e aproveitamos pra completar o tanque, tomar uma bebida quente ou mesmo acertar algumas coisas nas motos. É nesta hora que eu fico olhando para o lado de fora... Na estrada... Com pessoas com pressa, sem pressa, acelerando só porque acha que a chuva acabou e a estrada está pronta para uns quilômetros por hora a mais... Doce ilusão.
Mas também, por um breve momento (daqueles que você está olhando para um lugar e tudo fica embaçado e você apenas perde o foco) eu me lembro dos dias em que estava com meu velho... Tempos antes dele surtar e jogar tudo pro alto partindo em direção de outras estradas maiores. Tempos ao qual ele sempre me dizia pra não andar exatamente com quem eu ando hoje, pra não fazer exatamente o que eu faço hoje, para ser um homem sério, bem sucedido (que para ele significava ganhar dinheiro, muito dinheiro), pra ser uma pessoa em casa, uma pessoa no trabalho e uma pessoa na rua... Em fim, que bom que ele se foi. Hoje, a única coisa que sobrou dele, foi a antiga "quinhentas" toda feita em ferro, mais pesada do que duas motos "quinhentas" de hoje. Mas nada muito mais ou menos perecível do que suas próprias palavas. Foi através dele que eu tive as maiores lições de vida (só que ao contrário). Foi na tentativa de não ser ele que eu consegui ser o que sou. Mesmo que na verdade não importe muito, ou que eu venha a ter o mesmo fim que ele e todo o resto da humanidade.
Mas também pensando no que ele sempre falou pra mim, serviu não só de antídoto para o seu comportamento como também pra aprender a enxergar pessoas como ele. Sabe? pessoas que são uma coisa em cada lugar e isso com certeza complica as coisas quando se encontra com essas pessoas em mais de um lugar. Elas não sabem reagir com um padrão só e por isso travam, cometem deslises... alguns bem desastrosos.
Foi numa dessas tentativas de ser sempre a mesma pessoa, a vida toda, que eles me encontraram. Exatamente na saída de uma igreja (como comentei num outro relato) que eles me viram ser o mesmo homem, no bar, no cemitério e também na igreja. Não demorou muito para que eles viessem até mim, puxassem papo, pagassem uma cerveja e quando eu me dei por conta estávamos socando um outro grupo por conta de um freezer cheio das mesmas cervejas quentes de sempre. Na semana seguinte eles me visitaram, sem querer entrar em casa, apenas paravam na porta. Sua mãe olhava pela persiana e se deixava ser percebida como quem "tomava conta do seu marido". O pessoal não ligava, acendia um cigarro e la só me via balançar a cabeça positivamente para eles e dar uma rápida corrida no gramado até a garagem. Em instantes já estava eu na antiga quinhentas, barulhenta, atrás dos caras.
Tempos depois já não precisavam vir aqui me chamar, eu sentia a hora de pegar a moto e ir até eles. Sua mãe nunca disse que eu estava estranho ou coisas do gênero (aquelas que sua mãe falaria pra você na adolescência), mas eu sabia que não era o mesmo "eu". eu estava mas livre, despojado e completamente adaptável a qualquer ambiente. Andar com eles me fez evoluir.
Sempre achei que os caras tinham uma forma de se portar, de se vestir completamente diferente dos outros, e era isso que me faltava;
Nunca preocupei com minhas roupas, bons modos tradicionais (embora sempre considerei a palavra respeito como algo perdido ha muito tempo e digno de se buscar/encontrar), tão pouco me adequei aos padrões de vida normais. Mas sabia que havia algo a mais nisso.
Bom, o tempo passou, uma tatuagem aqui (sobre algo que eu nem sei de tão doido que estava), um machucado ali (daqueles que a gente se lembra depois da ressaca e de ver a moto toda empenada). A barba e os cabelos maiores, alguns anéis (que marcaram os eventos/viagens em que eu estava) até que um dia me chamaram lá "casa" deles. disseram que tinham "algo" pra mim.
Cheguei lá e eles me mandaram sentar à mesa, tiraram de um saco de plástico preto um colete, nas costas, o mesmo símbolo de todos que ali estavam sentados. Me reconheceram.
Noite de festa,madrugada a dentro, cerveja, drogas, mulheres mas eu tentei me manter são e limpo. voltei pra casa, ansioso para me ver. Precisava ver apenas um detalhe.
Guardei a moto na garagem. Casa toda desligada. sua mãe já estava dormindo. Passei pelo quarto, fui no como dos fundos, onde ficavam as tralhas da sua avó. Fui onde o espelho era grande. Eu queria me ver. na minha cabeça eu era apenas um cara normal andando com "aquele grupo". Pensava no que eu devia colocar a mais para me tornar "um deles".
Liguei a luz, me vi por inteiro no espelho. tirei o colete por uns instantes, não consegui imaginar o que colocar. coloquei o colete novamente. quando me percebi,
Liguei a luz, me vi por inteiro no espelho. tirei o colete por uns instantes, não consegui imaginar o que colocar. coloquei o colete novamente. quando me percebi,
Eu já estava completo. eu já era um deles! sem o colete, e agora com o colete.
Conhece-los foi apenas a transição do meu EU que sempre andou só e perdido para agora andar com iguais, irmãos e em família.
Conhece-los foi apenas a transição do meu EU que sempre andou só e perdido para agora andar com iguais, irmãos e em família.
"A diferença entre a sua aparência e sua vida num MC tem que se limitar apenas ao colete! se você precisa colocar mais coisas além do colete. você tá se fantasiando. Em resumo, pode colocar coisas "a mais", Mas, transparência tem muito a ver com humildade, respeito e dizer estritamente sobre o que é você de verdade." - RWPP

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