Quando eu era criança passava em frente a uma sede de um clube de velhos fuzileiros. e nela havia uma plaqueta bem na porta ao qual estava escrito:
"Da porta para frente é algo,
da porta pra trás é algo,
escolha um lado
mas não fique debaixo do batente".
Em resumo: Entre ou caia fora. Como desde pequeno eu não tive nenhuma feição com a carreira militar, o lado de fora do clube me era bastante interessante, Até o dia e que descobrimos que um dos membros do nosso velho clube de motos foi um sobrevivente da guerra durante a minha vida jovem e tendo saído do clube de fuzileiros resolveu contar pra gente o que acontecia lá dentro...
Ele ria e dizia - lá dentro não acontecia nada.... e ria... a gente só bebia whisky, dava manutenção nas armas, ouvia johnny cash e um pouco de Elvis... E relembrava os dias de glória. Alguns batiam continência para algumas fotos dos soldados que já se foram... mas lá dentro não acontecia muita coisa.
Como ele sempre citava muito o "lá dentro", eu percebi que havia então o "lá fora" e então resolvi perguntar. Foi quando ele esqueceu do cachimbo e pôs-se a contar que o "lá dentro" é como o cérebro, as memórias e o "la fora" é o dia a dia do corpo. Era "lá fora" que provávamos para nós mesmos o que era um clube. Era lá fora que visitávamos os irmãos que já não podiam andar. Era "lá fora" que amparávamos as velhas viúvas que viram nossos irmãos desfalecerem. Era "lá fora" que visitávamos os pais dos nossos irmãos que por um chamado da nação tiveram que voltar para o campo de batalha e por lá ficaram, fazíamos dos pais deles, nossos pais... amparando, levando coisas do mercado, ou mesmo conversando num fim de tarde. Foi assim que fizemos amizades com os pais de nossos irmãos ao ponto de chama-los de pais pra nós também. Foi assim que compreendemos que não sentiríamos remorso ao ver a viúva de um irmão nosso casar novamente com outro irmão nosso. Afinal, uma família cuida de si muito além do laço de sangue...
E por aí vai...
Naquele momento, surgiu um instante de silêncio em respeito à memória do velho. Mas logo ele recobrou a carrancha e pegou o cachimbo... mas continuou. dirigindo-se a mim:
Você lembra do que tinha escrito naquela porta antiga do clube? ao passo que confirmei. E ele continuou: poisé... Aquilo sim tinha um grande significado pra mim e fico feliz em ter feito isso valer para todo o clube. Tanto o militar antes de sobrar só eu vivo, quanto para esse clube aqui que resiste a décadas...
Enquanto ele falava eu fazia as ligações dentro da minha cabeça de tudo que ele falou quando pela primeira vez, sentamos em volta de uma mesa do velho bar da cidade e com um pedaço de guardanapo e uma caneta escrevemos o que tinha que ter num estatuto e como deviam ser alguns tratamentos para o nosso clube... isso há décadas atrás...
Me lembro exatamente dele falando de que quando um membro era convidado, era como se ele passasse por debaixo de uma porta. Exatamente aquela que ele tinha escrita lá no clube militar. Ele tinha um privilégio que ninguém teve lá do lado de fora. Fala também que esse privilégio trazia responsabilidades pra sempre e que caso ele tivesse desonrado seu compromisso com "estar lá dentro" seria melhor que ele nunca tivesse entrado por aquela porta. Que do outro lado seria bastante confortável (como punição). Mas que aquele fato seria tão desmerecedor de respeito quanto de alguém ali debaixo do batente da porta...espreitando.
E isso fez um sentido sério pra mim.
Fez com que prósperos que não passaram pelo teste fossem vistos como escória nos outros dias após a expulsão. "fossem vistos" é estar exagerando no enxergar... Fez com os indecisos se separassem entre Irmãos para sempre e apenas poeira no vento. Fez com que irmãos que fossem aceitos, recebesse uma família digamos assim... com laços mais fortes e por aí vai.
O velho militar reformado, terminou o cachimbo após ter falando muito e ficou mais um pouco em silencio.
Depois de um tempo, pegou uma cerveja e deixou a sede. esperávamos que ele ligasse a velha pan-head e "tirasse a cara" mas não. Então olhei pela vidraça embaçada de um canto do clube e pude ver o velho lá do outro lado da rua... Quase perto da esquina, de frente para os escombros, fazendo continência para algo que tanto significou para ele.

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