terça-feira, 16 de outubro de 2012 0 comentários

entre o céu e o inferno.


Ha muitos anos atrás eu estive presente num encontro desses de motociclistas nas cidades pequenas (em geral). De fato tem muita coisa para se dizer deste "Circo". Mas o que eu quero dizer vai um pouco além de indignação. vai até o fato de tornar-se frouxo.

O local era interessante, os cidadãos respeitavam o evento e a festa estava indo muito bem quando eu cheguei, até que eu vi logo na entrada uma placa: 

"após o cordão amarelo, 
apenas coletes fechados. 
motos acima de 500cc 
não pagam estacionamento".

Segui com minha moto adiante, afinal não pagaria estacionamento já. Mas havia uma questão que ficou na minha cabeça: o que tinha "depois do cordão amarelo" que só os coletes fechados poderiam ver? é claro que isso também não era um problema pra mim. então continuei seguindo em frente.

O encontro estava dividido em duas partes: a entrada e os fundos; A entrada possuía lanchonetes, espaço para camping, banda ao vivo tocando, praça de alimentação, local de inscrição, trofeus, banner de fundo (com estrada) para fotos e por aí vai. Nos fundos era que o inferno começava. Tinha garçonetes sem a blusa servindo cerveja, stripers nas bancadas, motociclistas bêbados jogados no chão dormindo do lado do próprio vomito e algumas jogatinas como sinuca, baralho ou mesmo queda de braço. Nada muito fora da ordem ou do que foi feito pra existir.

Encostei minha moto perto de um tronco de uma arvore bem grande, assentei-me num banco ali por perto e acendi um charuto. Com alguns minutos, alguns motociclistas, amigos dessas estradas que a gente encontra por aí vieram até mim, perguntaram que horas eu havia chegado, se havia feito uma boa viagem , sabe? essas coisas comuns que se pergunta em eventos, mas logo voltaram para a festa.

De repente atravessou o cordão amarelo para o lado dos fundos) um homem, um homem acompanhado de seu filho. não sei bem porque, mas algo me dizia que eu devia continuar acompanhando os movimentos dele.

O cara estava "à caráter" mas não para o motociclismo de verdade. muita coisa "original da Harley" outras tantas coisas penduradas no colete que parecia aquelas mulas de cigano... E o filho dele, um menino de 7 anos (no colo do pai), olhava tudo com estranheza. 

O fato era claro. eles não deviam estar ali. Não demorou muito até o pessoal começar a cercar ele e o mesmo ter que dar as costas e a galera perceber em vias de fato ele não tinha um escudo de clube atrás do colete, só o brasão da HD. E então ele foi acompanhado até a porta.

"Deixei" tudo acontecer, e então fui até o bar e peguei uma cerveja. segui andando devagar até o cordão amarelo que separava o "céu do inferno" dentro do evento, e pude ver o tal Homem conversando com o seu filho enquanto comia um crepe... Já estava feito. O que eu tinha que aprender, terminara ali, e então eu dei as costas e retornei para o lado "certo" do evento. os fundos, é claro.

É interessante como as pessoas querem pegar algo pronto e tentar mesclar com o que elas tem. Pode parecer estranho, filho, mas o que eu quero dizer é: Quando se leva a família (ou o que temos mais próximo disso) a um encontro, é porque queremos que "esses convidados" partilhem de algo que vivemos, ou aprendam e convivam com esse tipo de ideia que temos durante o tempo que passamos lá... ouvindo rock'n roll, tomando uma cerveja ou mesmo dormindo em barracas. 

Entretanto o que temos são familiares que estão num evento como se fossem convidados especiais, e lá os "tais motociclistas" procuram dar um evento de qualidade superior. Com hotel, café da manhã, jantares no meio do evento e todas as coisas a mais. Pode parecer estranho, mas não reclamo do nível de gasto ou o que se resolve comer, gastar ou não é uma questão de cada um. 

Só que fazer o que esse cara fez, transmitir essa estranheza para o filho, pensar que os mesmos padrões de moralidade, liberdade sexual, companheirismo e relacionamentos são os mesmos patamares a serem julgados lá fora na sociedade e dentro da ideologia do motociclismo, É pensar completamente de forma enganada. 

Trazemos nossos familiares para a estrada ou um encontro para que eles endureçam espírito para seguir contra o que a vida dura nos dá, e não para amoleçam o motociclismo com seus espíritos frouxos e acomodados dentro de salas ar-condicionadas, com ternos, gravadas, computadores e papel.

Convidamos as pessoas que queremos o bem para que durante apenas um fim de semana, elas possam experimentar o que é viver perto do som alto, sentados em algum meio fio e bebendo uma cerveja gelada ou compartilhando a mesma garrafa de vinho no bico e não para sentarmos longe da área do evento e fazer passeios no shopping que são exatamente iguais aos de nossa cidade. 

Trazemos aqueles que amamos para perceber que um fim de semana pode compensar semanas inteiras de trabalho árduo e até o cansaço físico no dia seguinte, mas os mesmos insistem em carregarem com eles uma farmácia (opcional) inteira, cheia de tabelas, miligramas e horários que devem ser civilizadamente seguidas à risca, e isso é triste. 

O problema é que isso não vai parar e nem diminuir. o problema é que criamos no final de tudo, um motociclismo com cada vez menos "bom senso" livre de regras para um encontro social com cada vez mais leis e etiquetas... e isso é perder (ou melhor,  vender) a alma para o sistema. e transforma o inferno num céu... exatamente como não deve ser.
 
;