Ontem a tarde fomos (eu e minha família) até a casa do tio de minha esposa para tomar um café juntamente com a família dele para comemorar sua chegada de viagem. De fato não é uma viagem qualquer. Afinal, hoje ele mora na Bahia e foi com seu motoclube até o Ushuaia (terra do fogo, Argentina). Foram 40 dias de viagem e 38.000 quilômetros rodados em cima de uma moto e aqui ele estava de volta para comemorar este grande feito.
Então ali estávamos. Todos assentados em volta da grande mesa de granito escuro onde cabia todos assentados confortavelmente em cadeiras de couro pretas enquanto ele e sua esposa nos serviam e andavam em volta da mesa ajustando as coisas.
- Senta cara!
- Não! rs.... Eu já fiquei sentado 40 dias em cima da moto. agora eu quero é ficar em pé, he he he.
E ali escorando no balcão com o cotovelo e uma xícara de café na outra mão, punha-se a contar.
Contou caso de corrente estourada, de 3 pneus trocados, de propinas para policiais, de valores de "pesos" (dois por um em relação ao brasil), de gasolina, de vento forte, de estrada de cascalho, de frio (muito frio) e de lugares bonitos (muito bonitos).
A cena estava clássica. parecia um marujo que depois de viver 50 anos no mar, retornava ao casebre do campo para contar suas aventuras aos netos.
E como nem todos os netos são iguais as exclamações pautavam na sua mais distante variedade:
- Eu? 40 dias em cima de uma moto? você tá é doido!
- O que? ir nesta distância? não... meu lugar é em casa!
- E se chovesse?
- Nem que me pagassem um milhão de Dólares! meu lugar é viajando no exterior, mas de avião!
...Dentre as outras respostas.
No entanto ficava eu pensando no marco histórico que esse cara fez e isso vai muito mais além do que as fotos das férias (fora de época). Isso marca a sua própria história, marca as gerações!
E é exatamente naquela cena clássica que eu conseguia me enxergar como algo diferente de todas aquelas xícaras de porcelanas, pães caros, cozinha moderna ou recheios para as massas ali presente.
Não sou eu um algo melhor, ou de valor destacável. sou apenas incompatível. Não cresci com programas familiares de fins de semana. Não cresci pra ter dinheiro, não cresci pra mordomia e a filosofia do motociclismo veio a calhar! Na verdade caiu como uma luva.
Enquanto leves escárnios eram proferidos frente as aventuras, ali estava eu, com os olhos brilhando e a garganta seca... como um neto de Dom quixote que dera crédito ao seu avô.
Perguntava valores, distâncias, circuítos, medos, climas, rotas, e até sobre pousadas. pois um dia quero fazer uma longa viagem como esta.
A cena era claramente divisória: todas as mulheres escarneavam reclamando das condições, meu sogro até sorria as vezes, mas penso eu que ele tem em mente que já está velho demais ou desanimado demais para isso, o primo de minha esposa, alegre com a chegada do pai estava ali para ouvi-lo, mas de fato acredito eu que não se comparava a sede de liberdade com a qual eu estava (e ainda estou).
Por isso é que recomendo a minha
esposa e minha filha mais velha
desde já...
Gostem de moto....
Pois minha filha que está pra
nascer pode não ter o mesmo gosto da irmã ou da mãe...
o caminho da diferença começa aí!
Pois para errar um alvo (ou neste caso acertar um alvo diferente) o míssil não converge 180° na base...
ele apenas converge 0,2°
o resto quem faz é a distância.

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